Um editorial sobre a tentação do excesso e o regresso à escuta.

Durante demasiado tempo confundi movimento com progresso.
Faixa após faixa, opinião após opinião, como se a música precisasse de ser atravessada em vez de habitada. Nada me obrigava a isso. Eu próprio acelerava.
Quando parei, não encontrei revelação.
Encontrei ausência.
E nela, espaço suficiente.
Este texto nasce desse espaço. Não para anunciar uma nova fase, nem para corrigir a anterior. Muda apenas porque continuar igual deixou de fazer sentido. Não quer convencer, nem ensinar, nem alinhar-se com expectativas. Prefere permanecer num lugar instável — onde a escuta ainda não decidiu o que pensa.
O que um equipamento revelou
No último verão vivi com um equipamento que não colabora com o entusiasmo fácil: um conversor e amplificador de auscultadores que não acrescenta carácter, não dramatiza, não recompensa a atenção impaciente.
Não melhora a música.
Não a embeleza.
Não a explica.
Limita-se a não interferir.
O que isso expôs não foi o sistema, mas o hábito:
- a necessidade de excesso para sentir diferença;
- a confusão entre intensidade e verdade;
- o desconforto perante tudo o que não se impõe.
O áudio digital tornou-se um exercício de demonstração contínua: mais detalhe, mais ataque, mais assinatura. Talvez a maturidade — técnica e pessoal — comece quando já não precisamos que algo se faça notar. Quando um sistema não cansa, não chama por nós, não exige validação.
Não é um argumento.
Não é uma conclusão.
É apenas o ponto onde agora me encontro.
A análise ao Bricasti M3H está no site — não como resposta, nem como destino, mas como registo deste momento.
Fico com uma pergunta, e deixo-ta sem urgência:

O teu sistema pede atenção,
ou permite escuta?
Lyric Ti100 MkII — companheiro silencioso

Primeiro para a review das Duevel Bella Luna e depois durante outra temporada, convivi com o Lyric Ti100 MkII. Um integrado valvulado, single-ended, classe A: um amplificador que não pede atenção. Não exige intervenção. Limita-se a existir e a deixar a música existir.
Explorei válvulas diferentes — KT120, KT150, KT170 — e não foi a mudança de timbre que me fascinou, mas a constância do sistema. Cada válvula trouxe nuances subtis: agudos mais abertos, graves mais densos, palco ligeiramente diferente. Mas o amplificador manteve-se coerente, neutro, absolutamente confiável.
Percebi que a verdadeira magia não está no brilho ou na intensidade, mas na capacidade de não distrair. A música respira, o silêncio tem espaço, o ouvinte não é manipulado. É raro encontrar um equipamento que não tente provar nada — e isso transforma a escuta: torna-a mais profunda, mais paciente, mais inteira.
Bastidores
Nas próximas semanas vou publicar experiências com equipamentos que desafiaram lugares comuns:
- Lyric Ti100 MkII
- Marantz M1, um tudo-em-um para todos
- Azoric Audio Corvo, manufatura açoriana
- Lab12 Reference DAC 1 em confronto com pares diretos
- Beard M70 MkII, o meu primeiro mergulho no Vintage
Não serão análises apressadas. Cada encontro é um ponto de observação, uma pausa na pressa de ouvir. O que interessa não é medir, provar ou impressionar, mas perceber como cada sistema permite à música existir.
É esse espaço de escuta que quero partilhar contigo.

