Há um momento em que a expectativa começa a ceder. Não de forma abrupta — seria mais fácil — mas lentamente, quase com elegância. Entramos numa sala, depois noutra, depois noutra ainda, e aquilo que prometia ser revelação transforma-se em aproximação. Nem falha, nem sucesso. Apenas… tentativa.
No Hi-Fi Show, este momento não foi exceção — foi padrão. Não nos enganemos: este evento tem o grande mérito de reunir praticamente todos os importadores de equipamentos de áudio debaixo do mesmo teto, mesmo com todas as dificuldades, nuances e até as “mesquinhezes” do mercado do áudio em Portugal. Já o disse no ano passado, aquando da primeira edição, e volto a dizê-lo de forma genuína: parabéns aos organizadores.
A menos de cem metros dali, decorria em paralelo outro evento — as Ultimate Sessions Extreme, na sala Bridge do Palácio Hotel do Estoril — que merecerá cobertura própria. Aqui, foco-me apenas no que vi e ouvi no Centro de Congressos.

Logo à entrada, um dos patrocinadores exibia alguns carros elétricos, ao lado da 2ª feira do vinil do Estoril, parte integrante do evento. À esquerda, a Azoric Audio, do Faial, com as suas colunas de manufatura artesanal, das quais publiquei há poucos dias a análise às Corvo. Em frente, a Lunae Mons Research e as suas grandes cornetas a preencher de som cada milímetro cúbico à sua frente. E, mais adiante, os espaços dedicados à imagem, com LG e Hisense a garantirem e disputarem o colorido do evento.
Mas quem me acompanha sabe ao que venho: stereo doméstico à séria, para o regozijo de quem gosta de música — e, admitamos, também dos equipamentos que a transportam até aos nossos ouvidos, coração, e entranhas.
As condições não eram as ideais. Cada sala teve o seu som — e o som das salas imediatamente contíguas. Foi o possível. Som a atravessar paredes. A ânsia de mostrar novidades e, por vezes, a falta de tempo para afinar sinergias resultaram num conjunto de salas maioritariamente medianas, com algumas exceções notáveis — sobretudo nos momentos em que foi possível escutar com atenção.
Como só publico análises do que realmente me impressiona, também aqui me fico pelos sistemas que conseguiram ultrapassar esse ruído e entregar música. No contexto de um evento desta natureza, isso já é motivo de se lhe tirar o chapéu.
O que se segue não é uma hierarquia, nem um veredito. É uma seleção pessoal dos momentos que, no meu contexto de escuta, conseguiram ir além da demonstração de equipamentos.
A “Cavalgada das Valquírias” — Lunae Mons Research

A obra de Wagner não foi reproduzida. Foi projetada. Como se tratasse de novo do Festival de Bayreuth, ali e ao vivo no Estoril.
As cornetas de cinema vintage ocuparam o espaço do Centro de Congressos com uma autoridade física difícil de ignorar. Senti-a no peito antes de a processar com a cabeça. E, curiosamente, quanto mais distante, mais a experiência ganhava coerência — a pressão sonora precisou de espaço, neste caso, para se organizar antes de nos atingir.
Aqui não houve contenção. Nem era suposto. Houve escala. E presença. E muito, muito gozo físico!
Este sistema não precisou de pedir atenção, roubou-a — Audiovector + Accuphase + Aurender + Clearaudio / Kondo


Pela escala e autoridade, impôs-se. E, ainda assim, tudo esteve no sítio certo.
A autoridade tranquila da Accuphase em classe A, a fluidez da Aurender e a precisão da frente analógica resultaram numa apresentação onde a música não precisava de esforço para existir. Não havia demonstração a decorrer — havia música e drama a acontecer. Parei. Fiquei. Esqueci que havia mais salas para ver.
Já tinha escutado as Audiovector R10 com amplificação Gryphon e ficado impressionado. Aqui, com a amplificação japonesa, tudo ganhou outra solidez: grandiosidade e escala orquestral, fluidez com uma nota orgânica muito própria e uma autoridade que nunca precisou de se impor.
O som Accuphase não é hype.
Coerência como linguagem — Revival Audio + Octave + Matrix


Há sistemas que impressionam por partes. Este impressionou pelo todo.
A reinterpretação Grand Reserve das Atalante 5 pela Revival, com amplificação Octave — firme, autoritária — e fonte digital da Matrix confirmou uma sinergia que explorei recentemente em casa. Atalante e válvulas KT150. Médios encorpados, graves controlados, agudos extensos, mas limpos. Uma envolvência emocional constante — como se cada componente tivesse abdicado do protagonismo em favor do conjunto.
A música fluiu sem arestas, sem distrações. Nada a sobressair isoladamente — e foi precisamente isso que o tornou convincente. O sistema deste evento? Fica a pergunta.
Quando o tamanho deixa de importar — Audel + Sugden + Volumio


Num evento dominado por escala e ambição, este sistema fez o oposto: simplificou.
E funcionou.
As pequenas Audel, apoiadas pela fluidez característica da Sugden, conseguiram algo raro naquele contexto — ignorar o ruído envolvente e entregar música com intimidade real. Com escolhas fora do óbvio — Dead Can Dance e Nine Inch Nails — Domingos Marcelino construiu uma experiência que não soou apenas “bem reproduzida”. Soou viva.
Havia intimidade e transparência, um timbre natural e uma musicalidade discreta mas profundamente eficaz.
Entrei sem expectativas. Saí com um sorriso.
Não foram as colunas mais impressionantes do evento. Foram das mais honestas.
Equilíbrio como ponto de chegada — ØAudio + Aurora Audio + Holo Audio + Rui Borges

Houve aqui uma contenção elegante — e um equilíbrio que, num evento desta natureza, é mais difícil de alcançar do que qualquer extremo.
Nada em excesso. Nada em falta.
A transparência da Holo Audio, o corpo da amplificação EL34 japonesa e o génio de Rui Borges resultaram num som resoluto mas nunca analítico em excesso, com palco arejado e uma sensação de proporção difícil de alcançar.
Ouvi música que respirava. Que tinha tempo. Que não tentava convencer — e foi exatamente isso que me convenceu.
Carlos Moreira continua a demonstrar um ouvido apurado — daqueles que encontram pérolas onde outros arriscam passar ao lado.
Menção honrosa — Avantgarde Opus1 + Matrix TS-1
Já analisado em mais detalhe aqui em MoustachesToys, o conjunto Avantgarde Opus1 com o Matrix TS-1 confirmou em música e meia no show o que já tinha revelado no Porto: uma simplicidade que não pede desculpas por existir.
Dois componentes: Música! Direta, imediata, sem subterfúgios. Velocidade, impacto visceral, presença de palco quase tangível e uma macro-dinâmica impressionante — tudo ali, sem precisar se justificar.
Num evento onde muitos sistemas suaram para se afirmar pela complexidade, este afirmou-se pelo oposto — e fê-lo com um gozo desarmante.
A surpresa — Acapella

Havia aqui uma expectativa formada antes de entrar na sala.
Não correspondeu — e isso é o maior elogio que posso fazer.
O conceito hiper-esférico das cornetas Acapella contrariou vários preconceitos associados a esta arquitetura. Soou com uma contenção que desarmou as minhas ideias pré-concebidas. Nada do excesso. Nada da assertividade esperada.
A naturalidade, e sim, uma voz própria, segura — que não precisou de impressionar. Fica a minha curiosidade de conhecer num contexto mais dedicado.
O ano das cornetas
Se houve um tema transversal, foi este: cornetas.
Durante anos associadas a algum excesso e uma certa agressividade, surgiram aqui em várias configurações — e, com uma maturidade que obriga a rever posições e preconceitos.
Longe de perfeitas. Mas, quando bem implementadas, profundamente envolventes.
No Final!

No final, o Hi-Fi Show cumpriu no que era preciso cumprir: reuniu o mercado (este ano ninguém lembrou quem faltou), mostrou novidades, criou momentos. Não foi perfeito — as condições de um evento destas características não o permitem — mas foi real.
E no meio do ruído, literal e figurado, houve sistemas que me fizeram parar. Que me lembraram o que me faz fazer quilómetros, ficar acordado até tarde, e acordar cedo.
Este foi o ano em que engoli preconceitos: quatro dos meus cinco destaques foram cornetas. Cornetas que, ao contrário do estereótipo, souberam ser contidas, refinadas, musicais.
Talvez o hi-fi não viva da perfeição isolada, mas destes momentos — profundamente humanos — em que, por breves instantes, mesmo rodeado de imperfeição, a música é suficiente.
E às vezes, mesmo contra todas as probabilidades, ela acontece.
