A minha esposa gosta de pensar que tenho traços de autismo.
Vivemos tempos em que tudo parece dar em diagnóstico. Eu, de outra geração, gosto de acreditar que muitos desses ‘traços’ não passam disso mesmo: traços de personalidade — e que, entretanto, também saíram demasiados terapeutas das escolas, e toda a gente tem o direito de trabalhar.
Mas porquê esta introdução? Porque sou, supostamente, dado a obsessões.

Já fui uma espécie de petrolhead. As multas e as regras draconianas tornaram praticamente impossível desfrutar de um bom automóvel. E este contexto foi, aos poucos, amaciando essa minha maluqueira. Até que, há pouco mais de uma década, renasceu em mim outro bichinho: a ideia de que tenho o direito de ouvir a música que adoro da forma que mereço. Curiosamente, tudo isto começou — como não podia deixar de ser — com um carro. Mas esta história fica para outras núpcias.
Durante anos, fui consumidor ávido de conteúdos sobre carros de alta performance. Um desses fornecedores de sonhos — ou melhor, fabricante de automóveis: a Pagani. Fascinava-me a obsessão pelo detalhe. A ideia de que cada ínfimo pormenor é pensado para atingir o máximo desempenho possível, mas também para criar algo emocionalmente avassalador para quem tem a sorte de o desfrutar.
Ora, o sistema que tive o privilégio de ouvir — ou melhor, experienciar — nas últimas Ultimate Sessions Extreme, na sala Bridge do Palácio Hotel do Estoril, levou-me exatamente para este território.
Sim, é este tipo de comparação.
O sistema

As colunas, as belíssimas Marten Coltrane Quintet, são escultóricas. Confirmam uma teoria pessoal: colunas não têm apenas de soar bem — têm de ficar bem. E estas ficariam extraordinariamente bem na minha sala… se a minha carteira lá chegasse. Quanto ao som, já lá vamos — mas neste caso não adianta tentar manter o grande suspense: cantaram. E encantaram.
Na amplificação, a novidade por cá, os monoblocos Stellavox Idem em parelha com uma das máquinas que mais admiro: o prévio Boulder 1110. Já o vi fazer maravilhas em sistemas muito abaixo — e também muito acima — do seu price point, que já de si está fora do alcance da esmagadora maioria.

A fonte digital ficou a cargo do conjunto Master Fidelity NADAC D e C (DAC e clock), alimentados pelo leitor de rede Aurender N-50, topo de gama da marca coreana, em três chassis.
Tudo isto, por si só, já impressiona. Mas tal como num Pagani, não é apenas o motor V12 AMG montado à mão, nem todo o design exclusivo e diferenciador que definem a experiência. É o nível de obsessão pelo detalhe que desce até ao invisível — até aos parafusos, em titânio grau 7, com paládio, feitos por encomenda, cada um com a marca “Pagani” e a custar à marca €80 cada um para produzir.

É aqui que o paralelismo se fecha.
Porque neste sistema, esse mesmo nível de detalhe estendeu-se a tudo: toda a cablagem Ansuz D-TC Gold Signature, tratamento de rede com router e filtro da Taiko, condicionamento de corrente Audiotricity Stheno, filtros de corrente Arya Kyoon em cada tomada da sala. (links incluídos para quem quiser explorar mais cada um destes “parafusos”).

Nada foi deixado ao acaso.
No total? Um sistema para cima dos 600 mil euros. Em cabos, tratamento de corrente e de rede está o correspondente a um Boxster S 2.5 com alguns extras.
Quem pode, pode. Quem não pode… resta-lhe aparecer numa destas demonstrações, e sentir um cheirinho daquilo que este sistema é capaz. Lá estarei na próxima Ultimate Session no Porto para matar saudades…
E ouve-se?
Porque um sistema destes não se mede em especificações, mede-se na forma como nos agarra — ou não — à cadeira.
Começando por St. James Infirmary (Live Edition), de Angela Brown.
Este projectou Angela — mais que a sua voz. A energia, o corpo, a presença — não era apenas uma gravação ao vivo, era um evento a acontecer ali, à nossa frente. As Marten desapareceram, e ficou Angela ali connosco.
Também em O Primeiro Dia, de Sérgio Godinho, não estive numa demonstração. Não. Estive lá, no concerto, mas sentado na confortável cadeira do Palácio Hotel do Estoril. Aquele ligeiro grão na voz, a forma como as palavras se encostam à música — tudo ali, inteirinho, sem polimentos. Godinho, na sala Bridge.
Depois, Blues for Madeleine, de Bodil Niska.
O saxofone surgiu com textura “amadeirada”, quase áspera, mas nunca agressiva. Com aquele equilíbrio difícil entre detalhe e densidade — sente-se o ar a passar, o metal a vibrar. O som, exposto, mas nunca com o mínimo traço de esterilidade.
The Thrill Is Gone, Fragile; confirmou o padrão: controlo absoluto sem matar a emoção. Este sistema sempre com muito “binário” de reserva. A música à flor da pele. Da pele das percussões.
E então veio Bach — Toccata and Fugue in D Minor.
A sala encheu-se. Vibrou na mesma frequência do órgão de tubos.
Literalmente… e não só.
Há momentos em que deixo de analisar. Este foi um deles. A pressão sonora, a escala, o peso — isto já não se trata de apenas som, foi presença física pura. Senti no corpo. E, mais do que isso, senti aquele impulso perigoso: também quero.
Profissionalismo? Não! Agora fica lá fora!
A verdade é que, mesmo apesar de já estar no fim de 2 dias seguidos a ouvir dezenas de sistemas de som, todo o cansaço tinha ficado para trás. Já não me apetecia sair dali.
Com Rebonds B, de Christoph Sietzen, o sistema mostrou outra face: rapidez, ataque, controlo transitório. Cada impacto teve início, meio e fim — nada se arrastava, nada se confundia. Energia pura, mas disciplinada.

Depois um salto para Take Five, pela 角田健一ビッグバンド (Kenichi Tsunoda Big Band). Aqui entrou o swing, o espaço, o jogo entre secções. O palco sonoro foi quase visual — dava para “ver” e principalmente, sentir os músicos distribuídos, cada um no seu lugar, sem esforço.
Em Drown, de ZABO, percebeu-se que o sistema não “vive” só em gravações “perfeitas”. Camadas densas, produção moderna — tudo separado, inteligível, mas sem perder impacto. Aliás, muito impacto, muita autoridade. Sempre sem soltar uma gota de suor.
Chris Botti, em My Funny Valentine com Sting, trouxe intimidade.
O trompete lança a provocação com brilho controlado, a voz de Sting responde, aumentando a parada. Aqui, menos foi mais — e o sistema soube recuar.
O Dindirindin, pelo Calmus Ensemble, foi um exercício de pureza vocal. Harmonia, respiração, microdinâmica — aquelas pequenas variações que fazem a diferença entre ouvir vozes e sentir um ensemble.
Já Diferencias sobre las Folias, pelo WoodAir Quartett, destacou o violoncelo sobre os sopros, com uma naturalidade desconcertante. Corpo, madeira, ressonância — nada soou artificial ou exagerado. E espaço para a luz da ribalta para os sopros também.
Marcus Miller, com Jean Pierre, trouxe groove. Baixo com autoridade, rápido, articulado — presente, mas nunca esmagador. Difícil de fazer, ainda mais difícil de fazer bem. Mas cumprido com uma cereja no topo.
E para fechar, Garota de Ipanema, por Rosa Passos.
Simples. Fluido. Mais uma vez sem qualquer sinal de esforço. Como deve ser.
E é talvez isso que mais impressiona: não o espetáculo, não o preço, nem sequer a obsessão técnica.
Mas a sensação rara de que tudo está exatamente onde deve estar. No tempo e no espaço.
A fechar

Já o ano passado a fasquia estava alta. Na altura, saí de lá convencido de que seria difícil repetir — quanto mais superar.
Este ano não só repetiram como complicaram o problema: deixaram no ar a ideia perigosa de que sempre há margem.
E isso, para quem é dado a obsessões… raramente acaba bem.
Mas há piores problemas para se ter — um sistema destes, pelo menos, não se estampa contra uma árvore.


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