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Alta-Fidelidade é sobre equipamento? A Goldmund responde em Portugal e Espanha

Há eventos que se digerem. Este artigo é a minha digestão da chegada da Goldmund ao mercado ibérico, com direito a três salas, três sistemas, um deles com um par de monoblocos que parecem ter saído do Espaço 1999 (lembram-se?), pertence claramente a uma categoria à parte do que nos fomos habituando nos últimos anos. Demorei a escrever este texto de propósito — porque a primeira impressão de um evento de alta-fidelidade é quase sempre emocional, e acredita, a tentação de ir pelo lado emocional foi grande. A Goldmund, mais do que qualquer outra marca que tenha ouvido recentemente, convida a esse desejo/emoção imediatos. Mas passado o tempo, alguns banhos de água fria entretanto, o que ficou não foi a memória de “boas colunas” ou de “um boa amplificação”. Foi a sensação clara de que a Goldmund está, neste momento, num patamar à parte de tudo o que já ouvi desde que me dediquei a escrever sobre estas experiências.

Não é desprimor para todas as outras marcas já presentes em Portugal — longe disso. É, isso sim, reconhecer que, acima da excelência, ainda há um outro território. Um lugar onde deixamos de avaliar: “muito boa, excelente reprodução” para começar a avaliar no campeonato da honestidade musical. E aqui — apenas — não tem significado nada redutor, pelo contrário. E foi exatamente isso o que as três salas, cada uma com uma proposta distinta, me obrigaram a repensar: ouvir não como crítico, mas como alguém sentado, de facto, em frente a uma orquestra, a uma guitarra, a uma voz.

Tive ainda a oportunidade de falar com Rodolphe Boulanger, representante da Goldmund, e Christophe Savioz, da Stenheim, marca suíça que “emprestou” um dos seus modelos da linha de referência aos monoblocos Telos 4800 na sala “da artilharia pesada” — porque para artilharia pesada, é preciso munição à altura. Quanto às entrevistas, registadas em vídeo, não vou perder a oportunidade de fazer os curiosos sobre o que se falou, a voltarem aqui a Moustachestoys para os artigos dedicados. Tenham paciência…

1ª Sala — Colunas Goldmund ativas + Streamer Eidos

Goldmund Asteria active speakers + Eidos streamer

A primeira sala apresentou a proposta mais “simples” na arquitetura, mas a mais ousada na filosofia: um streamer Eidos a alimentar diretamente as colunas ativas Asteria. Sem pré, sem amplificador separado, sem uma teia de cabos a querer tomar parte do protagonismo. Confesso que entrei com um certo preconceito — a ideia de que simplicidade de cadeia significa simplicidade de resultado. Tive de recuar, e de que maneira.

Logo com River of Tears, de Eric Clapton, a guitarra chorou de uma forma de desabafo instrumental — avassalador e, ao mesmo tempo, purificador. Seguiu-se The Heroic Weather – Conditions of the Universe, Pt. 7, de Alexandre Desplat, a homenagem ao finale da primeira parte de Tubular Bells, com a sala a mostrar uma coerência tonal acima da média, provavelmente beneficiada precisamente por se tratar de um sistema ativo — sem o manto de retalhos que tantas vezes traem a junção de componentes separados.

Mas foi com Com Que Voz — Camané a interpretar poema de Camões sobre composição de Alain Oulman, desta vez ao piano de Mário Laginha — que as Asteria me desarmaram por completo. Esperava uma reprodução mais “arquitetada”, mais contida pela simplicidade do desenho; encontrei uma reprodução orgânica, honesta, realista, fiel ao lamento que a faixa pede.

Chasing Cars, na voz texturada e enfumaçada de Chantal Chamberland, trouxe intimidade e vulnerabilidade — quase um segredo partilhado à meia-luz. Raising Venus, com Malia e a eletrónica rica em texturas tridimensionais de Boris Blank, mostrou sensualidade hipnótica e uma linha de baixo envolvente sem nunca perder o controlo. E Into My Arms, na assinatura dramática de Camille O’Sullivan, talvez tenha sido o momento mais teatral que ouvi nesta sala: começa num sussurro e desaba numa entrega vocal catártica e rasgada, com a reverberação e a tensão servidas numa bandeja pelas Asteria.

Se houve um ponto onde esta sala ficou ligeiramente atrás das outras duas, foi no decay das notas e na sensação de “vivo” — talvez o sistema menos vivo dos três em demonstração, ainda que isso não comprometa, de todo, a sua naturalidade tímbrica, que ficou muito acima da média. Aliás, foi precisamente aqui que fiquei, metaforicamente, a abanar em cima do muro entre esta sala e a do integrado Telos 690 com as Kroma Jovita — indeciso sobre a quem entregar qual medalha.

Goldmund Eidos Streamer

O que mais me marcou, no entanto, foi a separação de naipes na música orquestral — honesta, real, sem o “fogo de artifício” que tanto se escreve por aí, muitas vezes por quem nunca se sentou em frente a uma orquestra a sério. Quem procura espetáculo tem de procurar mais acima na hierarquia da marca, ou simplesmente noutro lado.

Goldmund Eidos streamer + Asteria active speakers

E sobretudo: o sistema desapareceu. A música — sim, música, não som — vinha da sala, não das colunas. Sem aspereza ou arestas aguçadas apesar de um detalhe só igualável por uma ressonância magnética, sem exageros nos agudos (e quem me segue sabe como sou sensível a essa zona do espetro), sem compressão dinâmica.

2ª Sala — integrado Goldmund Telos 690 + colunas Kroma Jovita + streamer HZ

Se a primeira sala foi uma lição de entrega, a segunda foi uma lição de comunhão com a música. Aqui, o streamer HZ alimentou o integrado Goldmund Telos 690, este ligado às Kroma Atelier Jovita — e desde a primeira faixa que ouvi, House of the Rising Sun na versão de The Ghost of Johnny Cash, percebi que estava perante o sistema com que mais facilmente “esqueci” que estava a avaliar e simplesmente fiquei por ali a sentir.

HZ streamer + Goldmund Telos 690 integrated

Em Scheherazade, com a Chicago Symphony Orchestra sob Fritz Reiner, a sala respondeu com uma escala e uma autoridade que nada ficou a dever a outra qualquer sala do calibre da sala dos monoblocos 4800, de que já falo a seguir. Mas foi sobretudo com Time After Time, na versão ao vivo de Miles Davis, que tudo fez sentido: senti todos os músicos em comunhão, e o despique entre trompete e guitarra foi, sem exagero, mágico. Mas aqui principalmente a comunhão foi dos músicos comigo, e calculo, com quem lá esteve comigo neste momento.

A partir daí, faixa após faixa, o sistema foi-se revelando cada vez mais impressionante. Por exemplo no controlo sobre os graves — como em Invocation (A Prophecy), de Richard Bona — e particularmente revelador em The Astounding Eyes of Rita, de Anouar Brahem, onde percebi algo que nem sempre se verifica: absoluta transparência e transporte de toda a mensagem inclusa na gravação, e música, que nem sempre andam de mãos dadas, mas aqui sim, e de que maneira!

Houve ainda espaço para o lado mais íntimo da audição: em Purple Rain (Acoustic), na voz de John Adams, e em Mama This One’s For You, de novo com Chantal Chamberland, desta vez a confirmar como a sua voz texturada parece ter sido feita para testar a coerência tonal de sistemas audio. Asa Branca, na orquestração de Arild Remmereit com a NDR Radiophilharmonie, trouxe a dimensão orquestral de volta à sala, e Avalanche, de Prince, voltou a pôr em evidência o ataque, a naturalidade e o decay das notas. Terminámos com Createur Immobilier, de Joscho Stephan ao vivo — encerramento perfeito para um sistema que, do princípio ao fim, nunca soou cansativo, mas sempre impressionante na sua capacidade de me cativar.

Foi nesta sala que senti o equilíbrio mais difícil de descrever por palavras: transparência total sem nunca lembrar que há equipamento entre nós e a música. Arrisco dizer que a Goldmund, com este integrado, passará a ser uma das referências do catálogo da Ultimate Audio.

Sala da artilharia pesada: Goldmund 4800 + Stenheim Ultime Two SX

Stenheim Ultime SX speakers + Goldmund Telos 4800 monos + Goldmund Mimesis Reference Preamp + Master Fidelity DAC & Clock + Aurender N50 streamer – Sala “1812”

Para artilharia pesada, munição de artilharia. A terceira sala dispensou apresentações antes mesmo de a música começar: os monumentais monoblocos Goldmund 4800, acompanhados por um par de colunas da linha de referência da Stenheim, outra marca suíça.

Goldmund Telos 4800. 1050W e volumetria face aos restantes componentes com “apenas” 43cm

A escolha de repertório aqui pareceu propositadamente desafiante. Summertime, na voz de Patricia Barber, serviu de aquecimento. Ancient Poem, da Savi Band, levou-me a pensar que a placa euro-asiática se poderia ter deslocado — tal foi o poder e sensação de facilidade de o controlar evidenciados respetivamente pelos monoblocos e colunas destas duas marcas suíças. Til Fader Vor At Ende, de Anne-Lise Berntsen e Nils Henrik Asheim, trouxe a sala para um registo quase sacro, de uma delicadeza que contrastava deliberadamente com a escala física e monumentalidade dos monoblocos e das duas torres de alumínio à minha frente.

Hallelujah I Love Her So, na voz inconfundível de Harry Belafonte, e o irresistível Pink Panther, de Markus Philippe, devolveram a sala a um registo mais descontraído — prova de que potência não significa, aqui, perda de capacidade de “brincar” com a música. Mas foi com o Piano Concerto No. 3 in C Minor, Op. 37: I. Allegro con brio, pela Swedish Radio Symphony Orchestra, sob Daniel Harding, com Maria João Pires ao piano, que a sala atingiu o seu momento mais revelador: conclui, mais uma vez, de forma tão evidente, que o piano é, no fundo, um instrumento de percussão — e este sistema mostrou-o sem qualquer pudor, com cada ataque de martelo a chegar com massa, corpo e decay perfeitamente proporcionais. E com as duas palavras que esgotei a quem me perguntou sobre o que ouvi: realismo honesto.

Esta foi, sem surpresa, a sala do “e se eu ganhasse o Euromilhões” — aquele tipo de pensamento que só sistemas verdadeiramente superlativos nos conseguem provocar.

O que fica, passado o primeiro momento de encantamento

Master Fidelity DAC & clock + Goldmund Mimesis Reference Preamp + Aurender N50 streamer

Ouvi, nas três salas, um som realista e honesto, e ainda assim profundamente orgânico. Com níveis de impacto emocional diferentes, consoante a sala — mas nunca, em nenhuma delas, intencionalmente a querer me impressionar sobretudo pelo fogo de artifício. Aliás, fogo de artifício tivemos, mas apenas na sala de artilharia, pela tentação de quem esteve aos comandos, de demonstrar outra característica dos 4800 casados com as Ultime, a capacidade de parecer fácil o mover das placas tectónicas.

A sala principal, com os 4800 e as Stenheim, deixou-me a pensar se seria capaz de viver apenas com um rim. Mas se há algo que este evento me ensinou sobre mim próprio como ouvinte, foi que o coração e as entranhas penderam, no final, para a sala do Telos 690 com as Kroma Jovita — talvez o equilíbrio mais difícil de alcançar entre escala, controlo e capacidade de desaparecer. Fico, confesso, curioso sobre como soaria este mesmo integrado a par das também suíças Stenheim Alumine Two.Five — para não me alongar para lá de equipamentos que já conheço com alguma profundidade e para lá das marcas presentes neste evento. Fica o desafio lançado à Ultimate Audio.

Master Fidelity DAC & clock + Goldmund Mimesis Reference Preamp + Aurender N50 streamer

E depois estão as Asteria. Para o universo de 99,9% de quem prefere não fazer castelos com componentes, com uma teia de cabos a ligá-los, a proposta da Goldmund — streamer Eidos mais colunas Asteria — é, provavelmente, o sistema mais lógico de todos os apresentados neste evento. E sim, admito-o sem qualquer problema: eu próprio faço parte desses outros 0,1%.

No final, o que esta apresentação ao mercado ibérico deixou claro não foi apenas que a Goldmund tem bons produtos. Foi que existe, de facto, um patamar acima — não por marketing, não por preço, mas por uma coerência de filosofia que atravessa três salas completamente diferentes e chega sempre ao mesmo destino: a música, e não o equipamento. Para quem tiver o privilégio de poder viver com um destes sistemas, fica o aviso — não vão à procura de espetáculo. Vão à procura de realidade. Uma realidade honesta. E, avisa-se desde já, corre-se o risco de nunca mais ouvir da mesma forma.

Impressões recolhidas durante a apresentação da Goldmund ao mercado ibérico na Ultimate Audio, com a presença das Stenheim Ultime Two SX, na sala da artilharia pesada.


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1 comentário em “Alta-Fidelidade é sobre equipamento? A Goldmund responde em Portugal e Espanha”

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