Durante o showcase da Goldmund ao mercado ibérico, em Portugal, as Reference Ultime Two ocupavam a sala principal da Ultimate Audio. Foi ali, entre uma faixa e outra, em frente às colunas, que consegui uns minutos com Christophe Savioz, da Stenheim, para perceber o que está por detrás de uma coluna com esta ambição.
Ver a entrevista completa no vídeo, no final deste artigo.
Das Alumine às Reference: a mesma base, escala diferente

A Ultime Two é o primeiro degrau da Reference Line, um passo além da série Alumine com que a Stenheim começou. Perguntei a Christophe o que muda de uma linha para a outra.
A resposta desmonta logo qualquer ideia de reinvenção: chassis em alumínio, transdutores de alta eficiência, crossover sofisticado — a base mantém-se igual. O que muda é a escala. Projetada a pensar em salas maiores, mais grave, mais palco, mais impacto. “That is what it brings more,” resumiu.
Papel contra diamante?
Uma das perguntas que mais me interessava fazer: porque continua a Stenheim a usar diafragmas de papel revestido e tweeters de seda, quando boa parte do high-end de topo corre atrás de diamante, cerâmica ou berílio?
Christophe não hesitou. A chave, disse, é a eficiência — e é o papel, material orgânico, que a entrega, a par de um som que descreve como natural. Não há um laboratório qualquer a testar exóticos à procura de algo melhor: “It is what we feel is what brings the most natural. It works.” Sem intenção de mudar.
O que não se vê

As caixas maciças em alumínio, com a disposição simétrica D’Appolito, são a assinatura visual da linha Reference — mas Christophe insiste que a intenção não é impressionar. O alumínio é inerte; qualquer ressonância é amortecida; o objetivo é o som “mais sem cor” possível. “We want to reproduce what has been recorded,” disse, quase como se fosse óbvio.
Um dos detalhes mais interessantes, contudo, fica escondido: cada transdutor tem a sua própria câmara isolada dentro da coluna, sem interferência entre vias. “I wish sometimes we can open to show it to you,” disse Christophe, quase a lamentar não poder abrir a coluna ali mesmo. “We don’t see it, but we can hear it.”
Goldmund e Stenheim: mais do que vizinhos
A ligação entre as duas marcas não é só de conveniência comercial. A Stenheim nasceu das mãos de engenheiros que tinham passado pela Goldmund, antes de a empresa ser comprada por Jean-Pascal Panchard — impressionado, segundo Christophe, por um som que correspondia exatamente à sua própria visão. Foi ele quem levou a marca da pequena Alumine até à Reference Line e, mais acima ainda, à Statement — “four big towers“, ainda maiores do que as que ouvimos naquela sala.

Sobre a associação com a eletrónica Goldmund especificamente, Christophe foi direto: nunca tinha ouvido esta combinação antes, e o resultado impressionou-o pessoalmente. Duas marcas suíças, disse, “we share a lot of value” — a mesma obsessão pelo detalhe, a mesma procura da perfeição. Havia potência, claro. Mas o que ficou foi outra coisa: “More than power is control.”
“Foste tu”
Christophe genuinamente tentou lembrar-se de quem o tinha dito primeiro, a caracterizar o som: “One of the person told me… told me it’s very honest.” Confirmei: fui eu. “Yeah, it’s you,” riu-se ele. “Now I am not the interviewer.” Devolvi a piada. E respondeu sem hesitar:
“I think it’s really what we want to be. We want to be honest.”
Não é um slogan pensado antecipadamente. É, ao que tudo indica, a palavra que melhor descreve o que a Stenheim está a tentar fazer — mesmo quando quem a diz primeiro nem é o entrevistado.
Fechar os olhos e ver a orquestra

Perguntei sobre a ideia, recorrente no discurso da marca, de recriar a energia e a atmosfera de um concerto ao vivo. É mensurável, ou é puramente subjetivo?
Para o Christophe, a resposta começa na engenharia, mas termina na sala de audição. A construção — chassis inerte, transdutores rápidos, crossover bem afinado — é engenharia pura. Mas o resultado que procuram é sensorial: alguém a fechar os olhos e a “ver” a orquestra à sua frente. Isso, garante, só se atinge com horas de afinação final na sala de audição — não há especificação técnica que substitua esse trabalho.
Precisão suíça, com atitude

É uma marca jovem, comparada com a Goldmund com que partilhou a demonstração, mas já com reconhecimento internacional — a Ultime Two SX foi, este ano, eleita coluna do ano Cost-no-Object pela revista Absolute Sound. Perguntei como descreveria a identidade sonora da Stenheim face à tradição suíça de precisão e neutralidade.
A precisão está lá, disse — isso é comum nas marcas suíças. Mas a assinatura Stenheim, sublinhou, é ser imediata, dinâmica, rápida no ataque. É no grave que isso fica mais óbvio: detalhado, preciso, dinâmico. Essa combinação, e não apenas a neutralidade, é o que identifica como a verdadeira marca da casa.
A pergunta pessoal
Guardei a pergunta mais difícil para o fim: se tivesse de escolher uma única gravação para apresentar a Ultime Two a alguém pela primeira vez, qual seria?
Christophe parou para pensar — a primeira pergunta do dia que o deixou hesitante. Acabou por escolher duas faixas que tinha ouvido naquela própria tarde: The Pink Panther, pela variedade de timbres e instrumentos, e um excerto de Carmen (acredita que pela Sinfónica de Viena). E, indo mais fundo no seu gosto pessoal, Miles Davis — “so many” opções possíveis, mas essa em particular voltou várias vezes. (Esta parte da resposta acabou por ficar de fora da montagem final do vídeo)
Antes de sairmos, Christophe fez questão de agradecer à Ultimate Audio pelo espaço — a atenção ao detalhe do distribuidor local, disse, fazia tanto parte da experiência quanto a própria coluna. Foi ali mesmo, entre as duas Reference Ultime Two, que a conversa aconteceu. Fazia sentido: sem aquela sala, nada do que ele acabara de descrever aconteceria da mesma forma.
Entrevista realizada durante a apresentação da Goldmund ao mercado ibérico, com as Reference Ultime Two em demonstração na sala principal da Ultimate Audio.

