HEDDphone Two GT MoustachesToys review in English
Sou da geração do Citroën AX GT, do Polo G40 e de outros pocket rockets que enchiam as estradas dos anos 90 com mais entusiasmo do que juízo. Uma época em que, recém-saídos da adolescência e com a carta ainda a cheirar a tinta fresca (sim, era em papel), o maior risco era perder o carro numa curva mal medida… e a vida logo a seguir.
O facto de estar a escrever estas linhas em 2025, com 3 décadas de estrada e 50 anos já oficialmente gravados no Cartão de Cidadão, clarifica que não fui uma das baixas do FIAT Uno Turbo i.e.
Imagino uma reunião, longa e acompanhada por café em quantidades pouco aconselháveis, onde a HEDD Audio decidiu acrescentar o sufixo GT aos seus HEDDphone TWO. E suspeito que a inspiração venha desse mesmo imaginário: mais flair na estrada, mais prazer de condução, menos obsessão por tempos de volta.

HEDDphone Two GT


Não se deixem enganar pelo aspeto familiar. Os HEDDphone TWO GT são muito mais diferentes do modelo “não-GT” do que as fotografias sugerem.
Mantêm o driver AMT proprietário, continuam a ser abertos e continuam a exigir amplificação competente. Mas reposicionam-se de forma clara e deliberada: menos foco no rigor de estúdio, mais atenção ao prazer musical.

A chegada destes HEDDphones à Torre Bigodes para review coincidiu de forma particularmente feliz com o dia da devolução do Matrix Audio TS-1 que passou por aqui para review — uma combinação que desde logo revelou uma sinergia rara. Esta impressão foi depois confirmada com o Bricasti M3, cujo amplificador de auscultadores integrado demonstrou, sem esforço, a escalabilidade e a maturidade destes GT em diferentes contextos de preço.

Construção, Materiais e Ergonomia

Materiais e Robustez
Tal como no TWO “original“, a construção inspira confiança. Materiais premium, montagem cuidada e uma sensação de solidez que não deixa margem para dúvidas quanto à durabilidade.
Conforto
Aqui não há milagres: não é um peso-pluma. Ainda assim, a distribuição de massa é bem resolvida e o conforto mantém-se em linha com os TWO. Sessões longas são perfeitamente possíveis, embora nunca haja dúvidas de que estão na cabeça.
Usabilidade
Os ajustes são suaves, a estabilidade é segura e a ergonomia transmite refinamento funcional. Nada de soluções exóticas para impressionar designers industriais. Aqui, a forma segue a função.
Cabos e Acessórios
Mais uma vez, a HEDD acerta em cheio.
O conjunto de cabos é completo, leve, flexível e com múltiplas terminações. A compatibilidade é imediata com setups portáteis, de desktop e balanceados. É um pacote de referência — não vai sentir necessidade de procurar upgrades. O que, neste mundo audiófilo obcecado em trocar cabos como quem troca pneus, é francamente refrescante.

Tecnologia e Especificações
Driver AMT proprietário, design aberto, elevada exigência de corrente, mas sensibilidade suficiente para funcionar com amplificação competente — não necessariamente monstruosa.
Escala, no entanto, de forma inequívoca com eletrónica de nível superior.
E fá-lo sem mudar de personalidade. Um verdadeiro GT: confortável a 120 km/h e absolutamente à vontade quando se pisa mais fundo.

Assinatura Sonora
Os TWO GT abandonam definitivamente o perfil mais clínico e profissional dos TWO originais.
A afinação é mais energética, mais “física”, mais convidativa.
Estes HEDD são pensados para desfrutar a música. Não para treinadores de bancada.
Graves
O grave em 24 Hours de Tom Jones é extenso e surpreendentemente físico para um AMT.
Há mais corpo no médio-grave e um impacto que não tenta impressionar, mas convence.
Não é um auscultador para bassheads, mas é autoritário, musical e bem controlado. Não é o grave mais seco que já ouvi. É um grave que respira.
Médios

Ricos, calorosos e indulgentes.
As vozes surgem com densidade harmónica e naturalidade; instrumentos acústicos têm corpo, textura e continuidade.
A transparência está lá. O microdetalhe também. Apenas não são exibidos como troféus.
Agudos
Há energia e arejamento no topo, mas sem excessos. Já sabem da minha sensibilidade neste ponto.
O resultado são audições longas, relaxadas e livres de fadiga.
Detalhe sem agressividade é sempre uma vitória.
E aqui, a HEDD ganha por KO técnico.
Espaço, Palco e Imagem
Palco bem organizado, com boa largura e posicionamento sólido.
A afinação a pender para o quente e o agudo bem medido criam arestas bem definidas mas arredondadas.
Não é desenhado a tinta-da-china. É pincel japonês.
No fim, o que importa está lá: a música vibra, motiva e emociona.
Dinâmica, Ataque e Velocidade

A velocidade e a resolução continuam a ser cartas fortes nestes GT.
Passagens complexas surgem claras e controladas, sem compressão.
A macrodinâmica é expressiva e quase física; a microdinâmica privilegia fluidez emocional em detrimento da dissecação clínica. Uma escolha consciente — e acertada.
Timbre, Textura e Realismo
Tonalidade ligeiramente quente, descontraída.
O som tem carne, peso e continuidade.
É profundamente natural e envolvente — daqueles que nos fazem esquecer a análise, ouvir o álbum inteiro… e depois mais outro.
Sinergia com Amplificação e Fontes

Escala claramente.
O Matrix Audio TS-1 revelou-se uma combinação exemplar, equilibrando controlo e musicalidade, e deixando claro que não é necessário vender um rim para desfrutar verdadeiramente destes GT.
O Bricasti M3 elevou ainda mais a fasquia, trazendo ainda maior realismo, autoridade, textura e espaço.
Não mudou o carácter. Apenas revelou ainda mais do que são capazes.
Comparações

Não seria intelectualmente honesto compará-los diretamente com a minha referência pessoal, os RAAL Requisite CA-1a, até porque já partiram há algum tempo. Ainda assim, a memória auditiva permite algumas notas:
Os GT aproximam-se do nível de detalhe dos sérvios, mas a musicalidade surge mais pelo timbre do que pela ultra-resolução. Ambos são precisos nos graves.
Os GT soam mais naturais no timbre, menos informativos nos médios e claramente mais indulgentes nos agudos — o ponto menos simpático dos CA-1a.
Onde os GT ganham sem discussão é na normalidade de utilização.
Não exigem o circo de hardware que os RAAL pedem para mostrar tudo o que sabem fazer.
Perfil Musical e Utilização
Brilham com jazz, vocais, acústica, rock clássico e música contemplativa.
Menos indicados para metal extremo, eletrónica agressiva e géneros que vivem da agressividade no topo.
Isto não é um track car. É um GT.
A minha Conclusão

Os HEDDphone TWO GT não são apenas uma revisão.
São uma afirmação de maturidade de uma marca que começa, claramente, a perceber o que o amante de música quer.
Mais musicais.
Mais universais.
Mais humanos.
Mantêm a identidade da HEDD Audio, mas aproximam-se do ouvinte.
Não são auscultadores para impressionar em cinco minutos.
São auscultadores para ficar.
Pros & Cons
Pros
- Construção sólida e refinada
- Cabos e acessórios de referência
- Graves físicos e envolventes
- Assinatura sonora natural e relaxada
- Excelente escalabilidade
Cons
- Bom nível de detalhe, mas não os mais analíticos
- Requerem amplificação competente para brilhar
Mas, honestamente?
Peguem nestes GT, numa playlist daquelas que criaram para condução em estrada de montanha, sentem-se frente ao vosso amplificador…
…e já começa a cheirar a borracha queimada.
Especificações e página de produto
Os HEDDphone Two GT utilizados nesta review foram gentilmente cedidos pela Exaudio.
Clique aqui e conheça o sistema com que foi testado o HEDDphone Two GT

Pingback: Now, THIS, Is a GT! - HEDDphone Two GT Review - MoustachesToys | High-End Audio Reviews & Experiences