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Antes da Multidão, Um sábado no Porto – Ultimate Sessions Março

Cheguei antecipadamente de propósito. Quarta-feira, antes do evento de sábado, final da tarde, Ultimate Audio Porto, sem o burburinho que aconteceria no sábado. Só eu, o Francisco, o Nuno, e os sistemas ainda a aquecer. Há qualquer coisa de sagrado em ouvir um sistema de alta-fidelidade antes do evento propriamente dito — sem conversas de fundo, sem o ruído social, o momento dedicado. Como se fosse conduzir um monolugar, como ter acesso aos bastidores de um concerto antes das portas abrirem.

Silent Pound + Accuphase + Matrix Audio

As Ultimate Sessions de março aconteceram há oito dias, mas deixei as notas assentar. Quis perceber o que permaneceu, o que resistiu ao filtro da memória. Porque entre este evento e o próximo, as Ultimate Sessions Extreme (10-12 de abril, literalmente a 100 metros do 2º HiFi Show Estoril), há apenas alguns dias. E o que se ouviu no Porto parece agora, à distância, quase um prelúdio — duas filosofias musicais opostas, dois caminhos para o mesmo destino.

Sala 1: Quando as Colunas Desaparecem

As Silent Pound Challenger II são um compêndio tecnológico. Open baffle nos graves, enclosure patenteada nos médios, directividade constante ao longo de todo o espectro — o tipo de ficha técnica que faz um engenheiro sorrir. Mas isto não é uma revista técnica, e o que importa não são os números: é o que acontece quando se carrega no play.

A cadeia completa era uma orquestração meticulosa: amplificação topo de gama Accuphase E-5000, fonte digital a cargo da Matrix com switch SS-1, clock SC-1 e streamer NT-1, conversão pelo DAC integrado no leitor SACD topo de gama da Accuphase, o DP-770, cablagem Crystal Cable, tratamento de corrente IsoTek. Tudo no sítio certo, cada peça a cumprir o seu papel, sem piruetas.

E então veio Kyrie (Vidala-Baguala). A voz de Mercedes Sosa enterra-se na terra como raízes de videiras antigas — grave, telúrica, cada vibração uma prece física que desce dos Andes. As Silent Pound correspondem, não só nas peles dos graves, mas também na voz de Mercedes e do coro. Grave profundo, realista, e físico qb. Escala. Estas colunas não lançam fogo de artifício — fazem música acontecer, sem se interporem entre ti e a emoção.

O momento de suspensão total chegou com a Barcarolle de Offenbach. A Royal Opera House, com direcção de Georg Solti, desliza pela música como uma gôndola em Veneza, sem confetes, só a beleza que desaparece na transparência absoluta. As Silent Pound desaparecem completamente. Momento raro. Apenas a música, flutuando no espaço, sem origem física aparente.

John Adams despiu Prince até ao osso em Purple Rain (Acoustic): guitarra nua, voz exposta. Dor sem disfarce nem electricidade. E depois Leonard Cohen, com Happens to the Heart — derradeiro Cohen, cada palavra um testamento, o adeus de quem já viu tudo.

Alexandre Desplat trouxe o seu momento Tubular Bells com The Heroic Weather-Conditions of the Universe, Pt. 7: After the StormMichel Camilo & Tomatito em duelo, com Spain Intro, piano e guitarra flamenca em sedução mútua. Duke Ellington trajou o blues de smoking em The Swingers Get the Blues, Too, e depois veio Fragile com The Thrill Is Gone — B.B. King, torcido até revelar novas geometrias. Gozo puro. O realismo das Silent Pound a fazer das suas.

Imagem correta mesmo fora do sweet spot. Grave? stiff, nunca excessivo. As Silent Pound desaparecem na sala. Absolutamente. Se a postura esbracejante de alguns equipamentos te irrita. Estas são as colunas para ti

Sala 2: A Simplicidade Radical

Avantgarde Opus 1 + Matrix Audio TS-1

A outra sala foi o oposto filosófico: o TS-1 da Matrix, streamer já revisto por aqui em MoustachesToys, confirmado com as novas cornetas activas Avantgarde Opus1. Só isso. Dois componentes. €15.000. E uma performance muito acima do que o preço sugere.

A cada lançamento, a Avantgarde consegue subir um degrau na musicalidade, e na consideração dos meus ouvidos. Mesmo este modelo, que é agora a base da oferta da marca, revela mais um degrau de evolução. Cornetas activas significam liberdade: sem amplificação externa, sem filtros, sem a complexidade orquestrada habitual. Apenas música, directa, imediata.

E muito, muito gozo!

Wynton Marsalis e Natalie Merchant expõem feridas, com delicadeza e sem medo em The Worst Thing. Brian Bromberg conta histórias de aventuras, sem palavras em The Saga of Harrison Crabfeathers.

Kari Bremnes canta a guerra fria do coração com contenção escandinava em A Lover In Berlin. A percussão confrontacional de A.R. Rahman em camadas múltiplas de tensão com Dacoit Duel.

Manuel de Falla explode em The Three Cornered Hat: escala vertiginosa, ataques certeiros, agudos impossíveis — uma explosão espanhola comprimida em 30m² de sala. Escala, velocidade, ataque, e agudos complicadíssimos (aposta arriscadíssima do Francisco) — tudo ali, sem esforço, sem drama. As Opus1 não prometem: fazem acontecer.

Depois, Jean-Guihen Queyras no Cello Concerto in C Major de Boccherini. O violoncelo galopa com virtuosismo rústico, elegância selvagem, pura energia dançante. Barenboim tocou Adiós Nonino de Piazzolla com a melancolia íntima de quem conhece a perda, e houve espaço para Cat Stevens fazer perguntas incómodas envoltas em melodia doce: Where Do The Children Play? Stevie Nicks levita em Dreams, voz etérea sobre baixo hipnótico, o sonho pop perfeito nascido do caos amoroso. Jagger e Richards domaram cavalos selvagens com fragilidade assumida em Wild Horses.

Matrix Audio TS-1

As Avantgarde estão no bom caminho. Muito gozo ao ouvir música. Simplicidade que liberta.

Duas Filosofias, Um Destino

Duas salas. Duas abordagens radicalmente diferentes.

Matrix + Accuphase

Na Sala 1, complexidade orquestrada: cada componente escolhido a dedo, tudo no sítio certo, a tecnologia a servir a música sem se intrometer. As Silent Pound como microscópio emocional — realistas, implacáveis, mas nunca frias.

Na Sala 2, simplicidade radical: duas colunas e um pré/streamer, música directa e imediata. As Opus1 como lembrança de que, às vezes, menos é infinitamente mais.

Ambas as salas chegaram ao mesmo sítio: à música. À emoção. Ao momento em que as máquinas desaparecem e só fica o que importa.

Daqui a dias, entre 10 e 12 de abril, as Ultimate Sessions Extreme acontecem em simultâneo com o HiFi Show Estoril, a 100 metros de distância um do outro. Estarei em ambos. E a pergunta que fica é esta: o que é que a Ultimate Audio guardou para estas Sessions Extreme, se já em março conseguiu fazer as colunas desaparecerem completamente?

Vemo-nos lá.

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