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Os Olhos Também Comem, HiFi Rose RS130 + RD160 — a review MoustachesToys

Há equipamentos que chegam a casa e imediatamente reivindicam o seu espaço. Não pedem licença. Não se apresentam com timidez. Entram.

O conjunto HiFi Rose RS130 e RD160 é assim. Coreano, construído com alumínio maquinado de alta pureza e presença, com um ecrã de 15,4 polegadas no streamer e um painel frontal com hidden screen no DAC que só revela o que tem para mostrar, quando decide fazê-lo. Antes de ligar um cabo, antes de carregar num botão, os meus olhos já tinham uma opinião formada sobre o que estava à minha frente.

Era boa. Demasiado boa, talvez.

A Primeira Impressão

Hifi Rose RS130 Streamer Transport
Hifi Rose RS130

O RS130 é uma tentativa deliberada de remover o digital do caminho da música. Toda a sua arquitetura aponta na mesma direção: isolamento. A utilização de ligações óticas, o recurso a um relógio interno de elevada precisão e a leitura da música a partir de cache interna são ferramentas para um único objetivo: impedir que o ruído, a instabilidade e o “stress” do mundo digital contaminem o sinal antes de chegar ao DAC.

O resultado é mais silêncio. Logo mais detalhe. Mais textura. Melhores nuances. E é nesse silêncio que a música ganha forma.

O RD160 continua essa filosofia, mas com outra responsabilidade: transformar esse sinal em som. Aqui, a abordagem é de transparência absoluta. Arquitetura dual mono, múltiplas fontes de alimentação internas e uma implementação cuidada dos chips AKM, que na minha interpretação não procuraram “embelezar” — procuraram não interferir.

Rose RD160 DAC
Hifi Rose RD160

É um DAC que não interpreta. Expõe. Mas sempre de forma suficientemente orgânica.

E tudo isto deixou-me com os olhos a salivar. Não só pela qualidade percecionada, como pelo brilhante ecrã tátil que ocupa todo o painel frontal do RS130.

O RD160 responde com a mesma filosofia. Aquele hidden screen que muda de aspecto consoante o que acontece dentro da caixa — ondas sonoras, curvas de volume, diagramas de circuito. É o tipo de detalhe que não precisava de existir. Mas a verdade é que faz toda a diferença.

Juntos formam um sistema desenhado para coexistir.

Visualmente, é o par mais impressionante que passou por esta sala. Para já, os olhos comeram, e de que maneira!

O Sistema (e as inevitáveis comparações)

O contexto importa. O sistema de referência em que o conjunto foi integrado está documentado na página Benchmark Stache. Um sistema que conheço bem — e que por isso mesmo torna as diferenças audíveis sem margem para dúvida.

Para a comparação de streamers, o RS130 defrontou o Volumio Rivo residente — mas não com o Volumio Rivo nu. O Rivo esteve artilhado, como sempre, com o filtro iFi Silent Power LAN iPurifier Pro e, a partir desta review, também com uma fonte de alimentação linear, para tornar o confronto mais justo para a máquina italiana. Sim, houve da minha parte uma tentativa deliberada de equilibrar forças. Os dois receberam exatamente o mesmo sinal de rede, através do mesmo switch, e de dois cabos ethernet (iguais até no comprimento).

Para a comparação de DACs, o RD160 defrontou o Fezz Equinox, by Lampizator — o conversor residente, com o qual tenho construído centenas de horas de escuta. Conhecê-lo bem é condição para perceber o que mudou. E mudou mais no caso do DAC do que do streamer. A função do streamer é entregar o sinal mais limpo possível. A matéria prima, ingrediente da música. O DAC tem de cozinhar os ingredientes segundo a receita entregue, com mais ou menos temperos. Como na cozinha, é importante a qualidade dos ingredientes entregues pelo streamer, mas também o toque pessoal do Chef (o DAC).

O Som que Demorou a Chegar

Rose RD160 DAC
Hifi Rose RD160

O veredito não foi imediato. Havia algo por resolver — uma contenção no registo médio, uma separação entre o que o conjunto prometia visualmente e o que deixou sentir nestes primeiros momentos. Era tecnicamente correcto. Mas ainda não era generoso. Ainda não respirava.

Reconheci o sintoma. Já tinha passado por isto também com o Equinox. Decidi esperar. Tanto o RS130, como o RD160 chegaram virgens à Torre MoustachesToys.

O burn-in não é magia — pode ser física, pode ser psicologia, provavelmente são ambas em proporções que ninguém sabe medir com rigor. O que eu sei é que há equipamentos que pedem tempo. E que a pressa de julgar antes desse tempo é uma das formas mais eficazes de não ouvir o que está à nossa frente.

A cedência foi gradual. O palco sonoro expandiu. Os transientes ganharam precisão e caráter orgânico. O silêncio entre notas — esse espaço onde muito do que importa acontece — ficou mais liberto. A música começou a fluir com uma naturalidade que as primeiras sessões não deixavam antever.

O que andei a ouvir durante a estadia deste conjunto da Hifi Rose na Torre MoustachesToys?

Hifi Rose RS130 Streamer Transport
Hifi Rose RS130

Durante as sessões de audição com o conjunto HiFi Rose RS130 e RD160, percebi uma assinatura sonora consistente que se revelou em diferentes géneros musicais, desde o clássico ao jazz, passando pelo rock, fado e música eletrónica.

Revelação de Micro-detalhes e Textura

Logo no crescendo de Mars de Holst, com Adrian Boult a conduzir a London Philharmonic Orchestra, o conjunto Rose revelou texturas e micro-detalhes impressionantes. Imagino-me a marchar por uma causa justa numa qualquer guerra ao som desta música. Em Also sprach Zarathustra sob a batuta de Fritz Reiner, o grave monumental do “nascer do sol” fez o meu chão tremer com dinâmica brutal.

Vozes: Tridimensionalidade e Respiração

Hifi Rose RD160 + RS130 DAC & Streamer
RD160 + RS130

A diferença torna-se particularmente evidente nas vozes. Em Who Knows Where The Time Goes? (live), a voz de Sandy Denny surgiu fluída, quente e intimista, embora arejada e com textura evidente, com sibilância perfeitamente controlada. As cordas metálicas da guitarra acústica apresentaram um decay rápido com harmónicos cristalinos. O palco organiza-se com a voz focada no centro e profundidade tridimensional.

Aqui já não há dúvidas.

Em Hurt, na interpretação crua de Johnny Cash, a sua voz trémula e envelhecida ganhou um grão impressionante, a transmitir toda a carga emocional, nascida com Trent Reznor, dorida por Cash, e agora a apertar também o meu peito. A guitarra acústica com ataques precisos e harmónicos cristalinos sobre um fundo silencioso absoluto. No clímax emocional, ”I will let you down“, a dinâmica explosiva é apenas contida pelo controle absoluto imposto pelo amplificador.

Fado: Intimidade com Resolução

Em Escrito no Destino de Helder Moutinho, o vibrato do fadista surge com “sal” tridimensional, enquanto a guitarra portuguesa é dedilhada com ataque nítido e decay etéreo, autêntica filigrana. O palco holográfico, ganha intimidade, mantendo a intimidade característica do fado mas acrescentando uma dimensão espacial envolvente. Materializa-se o “coração deserto“.

Porto sentido, acústico e ao vivo, de Rui Veloso, o hino da Invicta que nunca falha em me apertar o peito “em cada regresso a casa”, revela a alma do Porto traduzida na voz de Veloso. No final foi mesmo “muita emoçom carago”, com o reverb do Coliseu do Porto.

Rock e Alternativa: Energia Controlada

Hifi Rose RD160 + RS130 DAC & Streamer
RD160 + RS130

Em Cure for Pain, a textura grave do sax raspa-nos languidamente os ouvidos, com o baixo do saudoso Mark Sandman a marcar o ritmo e a bateria a bater no fundo. O palco transforma-se, de garagem crua, em clube fumarento de Boston.

Jazz: Swing e Espacialidade

O delicioso e groovy My Baby Just Cares For Me de Jeff Goldblum e a Mildred Snitzer Orchestra. Senti-me sentado no clube com a banda. Piano saltitante de “Jeffy“, como lhe chamou Haley Reinhart, cujos vocais ganham elevação, com o “smile” vocal tridimensional, e a respiração jazz de Goldblum e da sua orquestra revelados. Tudo encaixa.

Eletrónica/Atmosférico

Pipe Dreams dos Lonely Guest, com Rina Mushonga e beats de Tricky, revela o cello melancólico com harmónicos profundos e decay infinito. A voz de Mushonga ganha “névoa” tridimensional, os beats mostram punch preciso sem boom, criando um palco imersivo como se estivéssemos no estúdio de Bristol. A dinâmica vai do micro ao macro de forma explosiva, com silêncios absolutos.

RS130 vs. Volumio Rivo

Hifi Rose RS130 Streamer Transport
Hifi Rose RS130

O Volumio Rivo, com filtro ótico e alimentado com a fonte linear certa, é um streamer muito sério. Cumpre com muito rigor e sem drama — e esta versão optimizada arrisca-se a envergonhar máquinas de preços muito superiores.

O RS130 joga noutra liga. A diferença não está tanto no detalhe ou na resolução (que a há, mas na verdade milimétrica) — está mais na coerência. O Rivo apresenta a música como um todo, não como uma soma de partes, mas o RS130 vai um passo além. O palco do Volumio tem profundidade real, o RS130 suplantou-o (quando ligado ao Equinox) e com um foco desenhado a tinta da china, quando com o RD160. Os planos sonoros separam-se sem esforço, mas mais no leitor de rede coreano. O Qobuz, em modo Connect, que uso como fonte principal de streaming, ganhou na maior parte das vezes uma vida diferente com o RS130 como transporte — a informação que este serviço entrega chega ao DAC sem o ruído de fundo que, mesmo impercetível, condiciona o que ouvimos.

E essa é a diferença que senti entre o Rivo e outros streamers que passaram por minha casa antes dele. Eu também preciso de óculos para ver ao perto. Quando os ponho, faz a diferença entre conseguir ver com nitidez ou não conseguir ler sem esforço. A diferença entre o RS130 e o Rivo é igual ao momento em que acabo de limpar os óculos e passo a conseguir ver a textura do arroz que estou a comer, e não apenas a diferença entre cada grão de arroz.

O Rivo é uma ferramenta excelente, principalmente se o compararmos com a grande maioria dos streamers que andam por aí, mesmo até ao preço do RS130. O RS130 é outra coisa: é uma declaração sobre como o sinal digital deve ser tratado antes de chegar ao conversor.

RD160 vs. Fezz Equinox by Lampizator

Rose RD160 DAC
Hifi Rose RD160

O Fezz Equinox é um DAC com carácter. Tem uma musicalidade orgânica e envolvente, com uma textura nos médios que faz as vozes e instrumentos acústicos soarem com uma intimidade muito particular, como se os músicos fossem cá de casa. É um DAC que de certa forma embeleza a música — e para o meu gosto pessoal, isso é exatamente o que se quer.

O RD160 joga com outra intenção. Não embeleza. Revela. A transparência é de outra ordem — o que está na gravação chega sem mediação perceptível. Numa boa gravação, isso é uma experiência de presença absoluta. Numa gravação mediana, consegue ser implacável, e vamos senti-lo!, mas no fim o prato é servido com cuidado, e apreciamos a refeição na mesma.

A comparação entre os dois não é um julgamento de qualidade — é uma questão de filosofia. O Fezz convida. O RD160 expõe. Para o sistema que tenho, e para a música que ouço, o RD160 trouxe uma honestidade que o Equinox, com todo o seu charme, não consegue oferecer no mesmo nível. E é por isso que o RD160 vai direitinho para a minha lista Best Toys.

Conclusão: A Assinatura HiFi Rose

O conjunto RS130 e RD160 da HiFi Rose apresenta uma assinatura sonora clara e consistente, caracterizada por cinco atributos fundamentais:

Hifi Rose RS130 Streamer Transport

Resolução e micro-detalhe excepcionais – há informação aqui que simplesmente não aparece em equipamentos menos capazes, mas sem nunca soar analítico nem fatigante.

Palco tridimensional holográfico – cria profundidade, largura e altura impressionantes, com instrumentos e vozes perfeitamente posicionados no espaço.

Dinâmica explosiva com controle absoluto – desde os silêncios negros aos crescendos mais violentos, tudo é reproduzido com autoridade e controle, e no caso particular do meu sistema, com grande sinergia com a amplificação utilizada.

Textura vocal – vozes ganham um “grão” tridimensional, com respiração, vibrato e inflexões reveladas de forma orgânica e emocionalmente envolvente.

Graves: apertados e texturados – baixas frequências apresentam peso, controle e textura, sem boom ou indefinição.

Este não é um som quente e “analógico”, como eu próprio por vezes caio no erro de lhe chamar.

É uma apresentação moderna, de alta resolução, que privilegia a verdade tímbrica, o foco, a separação instrumental e a dinâmica.

E o que se sente é coerência: transparência sem frieza, detalhe sem esforço, música que flui com envolvimento real.

Este conjunto Rose não colora nem suaviza – revela, com transparência cristalina e palco tridimensional, recompensando as gravações mais conseguidas, sem contudo castigar as menos felizes, e precisa de parceiros à altura para mostrar todo o seu potencial.

Há quem separe o design do som como se fossem mundos paralelos. Como se a beleza fosse uma concessão ao marketing, e o que importa estivesse escondido dentro da caixa, longe dos olhos. Este conjunto HiFi Rose desfaz esse preconceito sem argumentar.

Simplesmente existe.

E existe tão bem que a única conclusão possível é esta: há sistemas que soam ao que parecem. O RS130 e o RD160 são exactamente o que aparentam ser.

Os olhos também comem. E aqui, o jantar correspondeu ao menu.


Os Hifi Rose RS130 e RD160 utilizados nesta review foram temporariamente cedidos por Ajasom


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