Durante a apresentação da Goldmund ao mercado ibérico, em Lisboa, sentei-me com Rodolphe Boulanger para falar da filosofia da marca suíça, da tecnologia TELOS, da longevidade dos seus produtos e da procura por uma reprodução sem coloração. A dada altura, a conversa saiu dos amplificadores e colunas, e foi parar a um sítio bem mais incómodo: será possível chegar ao fim da viagem do audiófilo?
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Algumas entrevistas servem de tapete vermelho ao discurso da marca. Esta começou por aí — pelos três sistemas apresentados no evento que marcou o regresso da Goldmund ao mercado ibérico, do estratosférico TELOS 4800 ao integrado TELOS 690, passando pelas colunas ativas Asteria. Mas não me deixei ficar por aí.
De um gira-discos até à tecnologia TELOS

A Goldmund nasceu em 1978, com um gira-discos que ainda hoje é referência para muitos aficionados. A partir do que aprenderam com o desenvolvimento deste equipamento, começaram a desenvolver a sua própria tecnologia de amplificação, batizada TELOS, que décadas mais tarde continua a ser um dos pilares da marca, agora presente em produtos de conceções muito diferentes entre si.
Foi isso, precisamente, que os três sistemas presentes neste evento em Lisboa vieram demonstrar. O TELOS 4800 como exemplo da expressão máxima da abordagem Goldmund em componentes separados. O TELOS 690 a mostrar como a mesma filosofia pode caber num integrado. E as Asteria a levar o conceito mais longe, com amplificação e processamento dentro da própria coluna.

Boulanger não vê isto como escolher entre produtos melhores e piores, mas como aplicar a mesma tecnologia a necessidades, salas e formas de viver a música diferentes. E há aqui uma ideia que voltará mais à frente: para alguns, a coluna ativa pode representar não o início, mas o fim de uma longa viagem.
O som Goldmund: “without colouration”

Perguntei a Boulanger como descreveria o som da Goldmund a alguém que nunca tivesse ouvido a marca. A resposta veio direta: “a sound signature that is really about the reproduction without colouration.”
A intenção é reproduzir o que está registado, sem acrescentar uma interpretação própria do trabalho do artista. Segundo Boulanger, isso passa também pelas escolhas de construção da marca — o alumínio, por exemplo, é usado por ser inerte, afastando tudo o que possa interferir com o sinal.
Neutralidade, aqui, não significa falta de energia. Boulanger fala de controlo, de grip, e sobretudo da capacidade de manter os drivers — em particular o grave — sob controlo a níveis elevados de volume, sem fadiga auditiva. Ouvindo as três salas, ficou claro que o objetivo da Goldmund não é impor uma assinatura sonora reconhecível, mas tirar do caminho tudo o que impeça o ouvinte de chegar ao que está na gravação.
Mechanical Grounding: a estrutura como parte do som

O conceito Mechanical Grounding acompanha a Goldmund há décadas. Nasceu no primeiro gira-discos da marca e foi-se adaptando à arquitetura dos diferentes produtos ao longo dos anos.
Segundo Boulanger, isso traduz-se numa estrutura extremamente rígida, com a energia mecânica conduzida através do próprio produto até ao ponto de contacto com o chão. É uma filosofia que atravessou gerações de produtos Goldmund e que continua presente, de formas diferentes, nos equipamentos atuais.
“More than upgradable, I would say fixable”
Num mercado onde a obsolescência eletrónica é cada vez mais difícil de ignorar, a longevidade dos equipamentos foi outro tema forte da conversa. Boulanger prefere uma palavra diferente da que usei na pergunta: upgradable:
“More than upgradable, I would say fixable.”
A Goldmund continua a reparar equipamentos com cerca de 30 anos, procurando uma solução sempre que tecnicamente possível — mesmo quando certos componentes eletrónicos já se tornaram obsoletos. Quando alguém investe valores elevados num equipamento de alta-fidelidade, a relação com ele pode durar décadas, e para Boulanger uma marca deste nível tem de assumir a responsabilidade de o manter vivo o máximo de tempo possível.

Nem sempre é possível — componentes deixam de ser fabricados e algumas soluções tornam-se impossíveis de reproduzir. Mas a tentativa de reparar, diz, continua a fazer parte da identidade da marca.
“We are not adding, we are not subtracting”

Um dos momentos mais interessantes da conversa surgiu de uma pergunta propositadamente incómoda: se a música é, à partida, uma interpretação artística por si só, como pode uma marca defender ao mesmo tempo transparência absoluta e ausência de coloração?
Boulanger admite que é uma questão difícil. A resposta que dá é simples: a Goldmund não quer reinterpretar o que o artista fez. Não se trata de tornar a música mais clínica, mas de tentar reproduzir o que está registado.
“We are not adding, we are not subtracting.”

É uma frase que resume, melhor do que qualquer especificação técnica, a filosofia que Boulanger descreve — e que eu apelidei, em modo off the record, de “som honesto”. A Goldmund parece querer evitar, tanto quanto possível, que seja a eletrónica a decidir pelo ouvinte como a música deve soar. Isto não é promessa de neutralidade absoluta desligada da realidade física de uma sala, de uma gravação ou de um sistema — é uma filosofia coerente com o que ouvi nas três salas desta demonstração.
A precisão suíça
Perguntei o que distingue a Goldmund num universo com tantas marcas de referência no high-end, e Boulanger voltou às origens. O fundador da empresa escolheu estabelecer-se em Genebra, região profundamente ligada à relojoaria — se a indústria relojoeira suíça dominava a produção de componentes pequenos e precisos, essas competências podiam também aplicar-se à alta-fidelidade.

A Goldmund mantém a produção perto da sede em Genebra, trabalha com fornecedores igualmente próximos e concentra montagem, testes e preparação dos produtos nas suas instalações — uma tentativa de aproximar a alta-fidelidade da lógica de outros objetos suíços de precisão, não só a fabricar, mas a controlar cuidadosamente todo o processo.
A viagem do audiófilo
Foi quando falámos dos clientes da Goldmund que a conversa mudou de registo. Para Boulanger, muitos deles fazem uma verdadeira viagem pela alta-fidelidade: começam com um sistema, experimentam outro amplificador, outras colunas, pré-amplificação separada, monoblocos, cabos, novas fontes. Vão subindo, comparando, trocando.
Até que, eventualmente, alguns poderão chegar às colunas ativas — e para um audiófilo essa mudança é drástica. Abandonar a lógica dos múltiplos componentes e aceitar que amplificação, DAC, DSP e processamento cabem dentro da própria coluna não é uma evolução linear, nem se calhar a mais comum. Segundo Boulanger, este caminho pode levar anos.
O homem que chegou ao fim da viagem

Foi aqui que Boulanger contou uma história que talvez explique melhor do que qualquer argumento comercial o que a Goldmund pode fazer.
Um cliente norte-americano tinha passado por vários sistemas da marca ao longo dos anos — eletrónica, colunas, sistemas cada vez mais sofisticados — até instalar um dos sistemas de referência com colunas ativas da Goldmund em sua casa, no Texas. Depois da instalação e de várias sessões de audição, escreveu a Boulanger. A mensagem, nas palavras do próprio, era simultaneamente feliz e triste:
“I was on a journey my whole life.”
E depois:
“I am at the end of that journey.”
Tinha encontrado o que procurava. O problema é que já não tinha nada para procurar — nada para melhorar, nenhum pré-amplificador novo para experimentar, nenhum cabo para substituir, nenhum componente para trocar. Para um audiófilo, chegar ao sistema ideal pode ser tão desconcertante como foi apaixonante a busca para o encontrar.
Goldmund em Portugal e Espanha
A Goldmund está de volta ao mercado ibérico através da parceria com a Ultimate Audio. Boulanger reconhece que a marca já teve presença significativa na região e mantém clientes diretos em Portugal e Espanha, mas vê agora oportunidade de recuperar visibilidade.
Identifica uma característica que, na sua opinião, aproxima estes mercados de outros países europeus: a relação pessoal com a música. Num mercado global onde certos equipamentos de luxo funcionam também como símbolos de estatuto, Boulanger nota uma diferença na forma como muitos consumidores europeus — portugueses e espanhóis incluídos — encaram a alta-fidelidade, com uma paixão que tende a ser muito mais pessoal.
O evento de Lisboa faz parte dessa estratégia: criar contacto, mostrar os produtos. Boulanger reconheceu também a atenção ao detalhe do distribuidor local na organização do evento — num segmento onde os clientes podem investir quantias muito significativas, a experiência em torno do produto acaba por fazer parte do produto em si.
A música ainda surpreende
A última pergunta foi deliberadamente pessoal: depois de tantos anos a ouvir estes sistemas, a música ainda consegue surpreender Rodolphe Boulanger?
“Sim”, respondeu, sem hesitar. Às vezes é uma gravação que conhece há anos e onde descobre, finalmente, um detalhe que nunca tinha percebido. Outras vezes é uma música completamente nova. E aí acontece o que provavelmente qualquer apaixonado por música reconhece: pega no telemóvel e: Shazam!
No fim de uma conversa sobre alumínio, vibrações, amplificação, DSP, DACs, precisão mecânica e sistemas de referência, fica uma motivação simples — descobrir música, ouvi-la de forma diferente, e querer voltar a criar aquele momento em casa. Se há mesmo um objetivo para a viagem do audiófilo, talvez seja só esse: que ela nunca tenha um fim.
MoustachesToys Meets Rodolphe Boulanger — Goldmund Esta entrevista foi gravada em Lisboa, a 20 de Junho de 2026, durante a apresentação da Goldmund ao mercado ibérico.
Entrevista: Vítor Santos, MoustachesToys
Entrevistado: Rodolphe Boulanger, Goldmund
Vídeo: Vítor Santos

