First ’26 Ultimate Session report in English
A antiga rubrica Moustaches’ Adventures at High-End muda de nome, mas não de ADN.
MoustachesToys on Tour estreia-se aqui.
E dificilmente poderia ter escolhido melhor palco.

Já fui a apresentações por dever para com os meus leitores.
Outras por curiosidade.
Mas há ocasiões raras — perigosamente raras — que me fizeram regressar.
Não porque haja mais para ouvir.
Mas porque aquilo que ouvimos não nos larga.
Francisco Monteiro, Cicerone da Ultimate Audio Porto, não é homem de fazer as coisas a meias.
Para anunciar o sistema que preparava para as primeiras Ultimate Sessions do ano, publicou no Facebook fotografias das Diptyque DP-140 MkII ao lado das Revival Atalante 7 Évo, com garrafas de vinho — também francês — e lançou o desafio à movida: “Alguém traz o queijo?”
Não levei queijo.
Mas fui.
E voltei uma vez.
E voltei de novo.
E trouxe um vício comigo.
O pré-evento: quando “só vou espreitar” não fica por aí

A minha primeira experiência com as Diptyque DP-85 já tinha deixado marca.
Colunas de painel não permitem neutralidade emocional.
Alguns descartam-nas como excentricidade.
Outros rendem-se ao impacto que provocam.
No meu caso, foi o segundo cenário.
A expectativa era elevada para ouvir as DP-140 MkII — dois degraus acima das 85 na hierarquia da marca francesa.
Numa primeira visita, ainda sem o integrado comemorativo da Gryphon, o sistema estava ancorado em território familiar:

- DAC Equinox by LampizatOr da Fezz (o mesmo conversor do meu sistema de referência)
- Leitor de rede Aurender N-50
- Integrado Accuphase E-4000 (um passo acima do meu amplificador na marca japonesa)
- Tratamento de corrente Isotek V5 Aquarius
Três dias depois, não resisti e voltei.
O sistema estava reduzido ao essencial:
DP-140 MkII + E-4000 + leitor de CD Accuphase DP-450.
Sem rede.
O que se ouviu foi uma lição silenciosa sobre musicalidade.
As peças Accuphase confirmaram o que já me tinham demonstrado: refinamento, textura, respiração.

Carlos do Carmo, com Joel Xavier em Gaivota, não foi reproduzido — foi convocado.
Shota Osabe & Margie Baker dissolveram-se em Willow Weep for Me.
Patricia Barber, em Constantinople, insinuou-se aos sentidos.
Keith Don’t Go, de Nils Lofgren — clássico inevitável em demonstrações — trouxe presença física e matéria.
Ouvi palheta.
Ouvi cordas.
Não era um ficheiro a ser reproduzido — era um instrumento ali, a quatro metros de distância.
As Diptyque, acabadinhas de sair das caixas, revelavam um leve brilho inicial nos agudos.
Mas mesmo nesse estado embrionário já deixavam perceber o que estava para vir.
Com o Accuphase, o sistema tinha músculo, mas não impressionava pela força bruta.
Convencia pela coerência.
Não esbracejava.
Persuadia.

Como uma boa adaptação de Jane Austen ao cinema: fiel ao espírito, sem trair a inteligência do original.
A Session: Gryphon 40 + Wadax Studio Player — Liga dos Campeões do Hi-Fi

A Gryphon celebrou o seu 40.º aniversário com uma edição especial do Diablo 333, o seu integrado best-seller.
As novidades? Retoques no chassis. Retoques na eletrónica.

O resultado chama-se, com modéstia dinamarquesa, simplesmente “40”.
Uma das poucas unidades disponíveis no mundo esteve presente nesta sessão.
A montante, o Wadax Studio Player — equipamento que provoca o mesmo efeito que um Ferrari numa estrada aberta: todos param para ver. E para ouvir.

Neste sistema, as DP-140 MkII deixaram de ser equipamento.
Tornaram-se portal.
Uma experiência de imersão total.
Ein Heldenleben ergueu-se com escala real. A Minnesota Orchestra respirava como organismo único sob a batuta de Eiji Oue. As crinas dos arcos roçavam as cordas com textura quase táctil. O ar entre os naipes era estruturado, denso, credível.
John Williams, em The Town Burns, acumulou tensão até a respiração se tornar consciente. Não por sugestão emocional, mas porque o sistema construía o espaço com rigor absoluto.

No jazz, a autoridade transformou-se em fluidez.
Roy Hargrove trouxe groove genuíno — não o groove polido de demonstração.
Sinatra surgiu tridimensional, com aquele meio sorriso quase audível.
Tsuyoshi Yamamoto atacou o piano com peso, corpo e massa harmónica.
Depois veio a exposição emocional:
Bebo Valdés e Diego El Cigala, sem verniz.
Barenboim, em Adiós Nonino, com tragédia contida.
Le Trio Joubran suspendeu o tempo com a riqueza tímbrica do oud.
E quando Eric Clapton entrou com Layla, dos tempos em que a MTV ainda significava música, qualquer tentativa de análise perdeu relevância. Os pés é que abanaram ao som da música.
Controlo absoluto.
Com o Gryphon 40 não há contemplação.
Há imersão.
E, mesmo assim, as Diptyque nunca perderam a compostura.
O veredicto: Diptyque DP-140 MkII

Neutralidade sem anestesia.
Assinatura limpa, aberta e resoluta, mas nunca clínica.
Não há coloração de caixa — há verdade tímbrica.
A gama média é protagonista.
Mas seria injusto dizer que apenas ela impressiona — o espectro inteiro é mais do que competente — mas é ali que a memória se fixa.
Vozes e instrumentos acústicos surgem com naturalidade, textura, corpo e inteligibilidade raras.
Orgânico.
Fluido.
Sem pirotecnia.

Os agudos são extensos, rápidos e abertos — agora já sem qualquer resquício de estridência, nem fadiga.
O leve brilho inicial desapareceu com as primeiras horas de rodagem.
Depois disso, tornaram-se viciantes.
O grave é profundo e articulado, mas não tem o “pontapé no peito” típico das colunas dinâmicas.
É mais textural do que físico.
Menos impacto visceral, mais leitura estrutural da música.
Para alguns será limitação.
Para mim, não foi.
O palco sonoro é holográfico, amplo e preciso.
Cada instrumento ocupa espaço tridimensional com foco e separação notáveis.
Quando damos por isso, já estamos dentro da música.
Não são colunas para todos.
Ainda bem.
O queijo que não levei
Na minha juventude, alguém me disse que há coisas que não se experimentam. Porque não se volta atrás.
Ninguém me avisou das Diptyque.
Não levei o queijo.
Mas fui três vezes à Ultimate Audio Porto numa semana só para as ouvir.

As DP-140 MkII não fazem pirotecnia.
Não medem felicidade em pontapés no peito.
Privilegiam verdade, espaço e nuance.
São para quem coloca a música primeiro.
São perigosamente viciantes.
Agora sou eu que aviso.

O nosso agradecimento à equipa da Ultimate Audio Porto por mais uma sessão memorável.
Até à próxima.
MoustachesToys on Tour continua.

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