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Quando um DAC chega com o peso da reputação, o impulso é imediato: arrumá-lo numa gaveta mental. “Preciso.” “Clínico.” “De referência.”
O Bricasti M3H traz essa aura — a de um equipamento que nasceu para ser régua, não pincel. E quando as expectativas são altas, o primeiro encontro raramente é neutro. Há sempre um pequeno choque.

No meu sistema, o DAC residente, o Fezz Equinox, ocupa o trono do sedutor. A sua assinatura envolve, chama, transforma audição em presença. O M3H, numa primeira escuta, com os ouvidos ainda moldados pelo Equinox, parece chegar com outra agenda: mostrar tudo, com clareza absoluta, sem pedir licença.
A pergunta instala-se quase de imediato: estamos perante mais um DAC para “audiófilos empertigados“, ou existe aqui uma precisão que não abdica da alma?
A resposta não surge num instante. Surge com tempo — não demasiado, mas o suficiente. Até que o M3H começa a revelar quem realmente é.
Arquitetura & Filosofia
A filosofia da Bricasti pode resumir-se numa ideia simples: precisão sem esterilidade.

Não é uma precisão que brilha encandeando. O M3H não foi desenhado para impressionar na primeira faixa. Foi desenhado para que, ao fim de horas, percebamos que nada está a incomodar. Que a música flui inteira, contínua, sem arestas aguçadas digitais. E sempre a pedir mais.
Dois pilares sustentam tudo: um silêncio de fundo quase absoluto, e uma continuidade temporal exemplar, a música não surge em blocos fragmentados, surge como um organismo único.
Aqui não existe digital glare. Não há holofotes artificiais a iluminar a música. A luz é natural, como numa sala bem desenhada, onde tudo está visível sem ser exposto.
Integração no Sistema

Para perceber o M3H (H por ser a versão com amplificador de auscultadores integrado) sem ilusões, coloquei-o em dois contextos opostos.
Com os auscultadores HEDDphone TWO GT: microscópio ligado. Aqui o M3H mostrou algo crucial: consegue ser incisivo sem se tornar agressivo. A informação surge inteira, controlada, sem tensão. E remeto para a análise a estes headphones], feita praticamente na íntegra com este DAC.
No sistema de colunas: Accuphase E-280 com Revival Atalante 3: a escala muda, mas a verdade mantém-se. Corpo, fluxo, continuidade. A neutralidade do M3H não é seca. É natural.
A frase que atravessa ambos os contextos é simples e definitiva:
O M3H é dinâmico, mas nunca pirotécnico.
Primeiras Impressões
À primeira audição, o M3H pode soar mais analítico. E é precisamente aqui que a armadilha se fecha.
O ouvido, habituado à liquidez do Fezz Equinox, procura sedução e encontra clareza. Surge uma primeira sensação momentânea e efémera de distância — como se a música estivesse do lado de lá, protegida por uma montra transparente.
Mas esse desconforto não é falha do M3H. É falha do hábito. Porque o M3H não está a ser frio. Está a ser honesto.
O ponto de viragem chega quando se percebe que, por baixo dessa clareza, existe corpo. Matéria. Respiração. No M3H não há análise sem vida. Há vida revelada com precisão.
Timbre & Densidade Harmónica
Aqui está o centro da assinatura do M3H: neutralidade orgânica.
Não é uma neutralidade desidratada. Não é uma neutralidade cinzenta. O timbre é natural, rico, completo. O som tem densidade sem se tornar pesado, textura sem excesso. A música mantém carne mesmo quando é transparente. E isto é essencial: nunca seco, nunca polido em excesso.

O M3H não tenta agradar.
Tenta ser fiel.
Dinâmica & Microinformação
O M3H comporta-se como o adulto na sala.
A dinâmica não é espetáculo. Não há fogo-de-artifício. A música cresce quando tem de crescer — não quando o DAC quer provar algo.
A microinformação surge sem ansiedade. Não é despejada. É revelada, integrada no todo.
A atitude é quase filosófica:
A música não existe para servir o nosso ego auditivo.
Resolução, Silêncio & Espaço
A micro-resolução é de alto nível. O silêncio de fundo é exemplar. Mas o verdadeiro mérito está na integração.
O M3H revela tudo sem expor os ossos. Mostra a estrutura interna da música sem a transformar num esqueleto. Há sempre carne, calor, presença.

A música permanece música.
Musicalidade vs Análise
Com o M3H, a velha dicotomia cai. Analítico não significa frio. Musical não significa eufónico.
O M3H é musical porque respeita o timbre. É analítico porque não mascara.
Não se rende ao romantismo.
Não se rende ao tecnicismo.
Respeita a música como ela é: complexa, orgânica, imperfeita e rica.
Comparação Implícita (mas inevitável)
O Fezz Equinox tem charme. Seduz, envolve, abraça.
O Bricasti M3H tem postura clássica. Observa, revela, permanece.
O Equinox emociona primeiro.
O M3H emociona depois — quando o ouvido percebe o que estava a ignorar.
A Conclusão

A expectativa era previsível: um DAC de referência, preciso, talvez demasiado sério. O confronto com o Fezz Equinox tornava o conflito inevitável.
Mas o tempo, sempre o tempo, a desmontar o preconceito. O Bricasti M3H não é um DAC para impressionar em demonstrações. É um DAC para viver com ele. Para ouvir tardes e noites inteiras. Para ficar.
A sua grande virtude não é a resolução, nem o silêncio, nem a dinâmica. É a coerência.
Extremamente resolutivo sem esfriar a música. Neutro sem ser árido. Honesto sem ser cruel.
Não é um DAC de pose.
É um DAC de maturidade.
E isso, no meu sistema e na minha experiência, coloca-o num patamar muito restrito.
A palavra final MoustachesToys:
“O Bricasti M3H não impressiona pela pirotecnia, mas pela maturidade. Neutralidade orgânica, dinâmica real e uma musicalidade adulta — daquelas que não gritam numa feira, mas ficam para sempre numa sala. Até hoje, o DAC mais completo que passou pela minha casa.”

Especificações
O sistema com que foi testado o Bricasti M3H
A unidade presente nesta análise foi gentilmente cedida pela Exaudio
