Eu, tal como a maioria dos que entram nesta doença maravilhosa da alta-fidelidade, tenho procurado mais. Mais detalhe. Mais extensão. Mais palco. Mais presença. Mais corpo. Mais transparência. Mais decay no prato da bateria, mais textura, mais ar em volta da voz, mais carne no osso, mais pele, mais sala, mais tudo.
Não há mal nenhum nisso. A alta-fidelidade vive também dessa fome. Mudamos cabos, suportes, fontes, válvulas, cápsulas, pré-amplificadores, colunas — e até a disposição mental com que nos sentamos, muda a perceção do que ouvimos. Tudo para chegar a mais e melhor música.
Mas nem tudo é procurar por mais. Há algo que procuramos que seja menos, conscientemente, ou que talvez nunca tenhamos reconhecido como procura: menos ruído.
E muito dele talvez nunca tenhamos percebido que estava lá.
O que é a Clearaudio Terra?

A Clearaudio Terra é a solução de otimização da ligação à terra da fabricante alemã de gira-discos. Organiza o chão elétrico do sistema hi-fi, tem seis ligações na traseira — três de terra direta, três em modo ground lift — ficha IEC ligada apenas ao condutor de proteção, bornes de ligação em plástico, caixa cilíndrica em alumínio com enchimento interno de areia. Vem com três cabos de ligação incluídos.
Especificações e ligações

Um cilindro de alumínio preto, 90mm de diâmetro, fabricado na Alemanha. Pode-se pagar com mil euros e ainda receber troco — troco suficiente para um croissant e um sumo, desde que este lanche não ocorra numa capital europeia. A Clearaudio Terra pertence à categoria de acessórios que já não se compram com moedas encontradas por acidente no sofá, mas que também não obrigam a vender órgãos que ainda possam ter serventia. Um Land Cruiser pode ser caro para uns, mas indispensável para outros. No áudio, a história é exatamente a mesma.
O sistema com que aconteceu este teste

O meu gira-discos não tem zumbidos óbvios, daqueles que fazem um homem levantar-se do sofá com o olhar de quem acabou de ouvir uma fuga de gás. Não há ground loops evidentes. Não há drama, não há nenhum hum, não há nada que grite “problema”. Por isso, quando combinei com o Francisco da Ultimate Audio experimentar a Clearaudio Terra, fui honesto: “Devolvo-te isto numa semana.”
O que, para os hábitos da Torre MoustachesToys, é um crime grave que merece pena capital. Normalmente não aceito fazer reviews que não impliquem pelo menos quatro fins de semana de convivência com o brinquedo em questão.
Mas uma caixa de terra? Em casa, num sistema que eu já considerava silencioso?
Pois.
O meu sistema de referência, aquele já conhecido pela maioria de vós que vai seguindo as minhas aventuras: gira-discos Avid Ingenium, pré de fono Pellar do mesmo fabricante, streamer Volumio Rivo emparelhado com o conversor Fezz Equinox — o tal, cozinhado por LampizatOr — Accuphase E-280 e Revival Audio Atalante 3. Sito nos subúrbios da Invicta, que era a maior aldeia do Mundo. Prédio urbano. Treze famílias no mesmo bloco de betão e tijolo. Elevador, routers, frigoríficos, carregadores, televisores, lâmpadas LED, vizinhos com vidas próprias e, com certeza, demasiados aparelhos elétricos ligados à mesma rede elétrica.
As primeiras impressões — Ligada ao gira-discos

Numa primeira abordagem, ligada ao Avid Ingenium, a Clearaudio Terra não produziu mais grave. O palco não expandiu nem aprofundou. A cápsula de 200 euros não acordou transformada numa de cinco mil. O Accuphase não passou a debitar watts ungidos por monges tibetanos. As Atalante 3 não cresceram mais vinte centímetros durante a noite.
Na minha casa. No meu sistema. Para o meu gira-discos. Os meus novecentos euros mantiveram-se calmos na minha carteira.
Mas a Clearaudio Terra não ficou apenas um dia — ficou uma semana. Hora de a experimentar nas outras fontes, as digitais, as aparentemente menos óbvias.
O que aconteceu nas fontes digitais

O que aconteceu no resto da estadia do cilindro da Clearaudio foi mais difícil de descrever. E talvez por isso mais interessante.
Havia menos qualquer coisa.
Menos ruído de fundo. Menos instabilidade. Menos a sensação de que a música estava a competir com um nevoeiro elétrico que eu, até aí, não tinha identificado — porque até aí pensava que tinha um sistema bastante silencioso. Remover é sempre mais difícil de perceber do que adicionar. Quando um componente acrescenta grave, é fácil. Quando abre o agudo, também. Quando projeta e humaniza mais a voz, o cérebro aponta o dedo e diz: está ali! Mas quando algo desaparece, primeiro estranhamos. Depois habituamo-nos. Só mais tarde percebemos que aquilo que desapareceu estava a ocupar espaço.
A Clearaudio Terra não melhora o som no sentido tradicional. Não acrescenta molho, não põe pimenta, não aumenta o volume psicológico da experiência. Remove. Remove ruído.
Menos ruído de fundo traduz-se em mais contraste. Menos interferência traduz-se em mais foco. Menos instabilidade traduz-se em mais naturalidade. Menos ruído — em mais pormenores que nem sabíamos que existiam.
Queres um exemplo fora do áudio? Troca o teu carro com motor de combustão por um elétrico — e as conversas durante a viagem, deixam de ser declamadas e passar a ser conversadas.
Os detalhes deixam de competir com um fundo instável. A música não fica maior por magia. Fica mais organizada. Mais limpa. Mais fácil de seguir. A voz fixa-se com menos esforço. O palco parece menos nervoso. Os silêncios entre notas ficam mais fundos — não por dramatismo, mas porque há menos a mexer onde não devia estar nada.
Ouvir baixo não é ouvir pequeno
Há algo importante aqui, que me interessa muito e que imagino que interesse a muitos como eu: a possibilidade de ouvir música a volumes reduzidos sem perder aquilo que normalmente só aparece quando rodamos mais o potenciómetro.
Aconteceu tarde. Meia-noite, talvez um pouco depois.
O Alto da Maia já tinha baixado a voz. Há sempre alguém a fechar uma porta, uma máquina de lavar a terminar um ciclo, um elevador a parar num piso qualquer. Mas naquela noite o prédio tinha finalmente encontrado sossego.
Estava a ouvir Sol Salutis, de Christian Jormin 3. O disco inteiro. No Qobuz. Evento raro em streaming.
Não houve explosões dinâmicas, graves sísmicos nem efeitos sonoros destinados a arrancar exclamações. É um daqueles álbuns que vive precisamente do contrário: do espaço entre as notas.
Piano, contrabaixo, e bateria.

Três músicos a construírem paisagens feitas de silêncio, microdinâmica e respiração. Um daqueles discos que não servem para testar um sistema. Servem para perceber até que ponto um sistema consegue transmitir humanidade.
Por isso acabou por se revelar o álbum perfeito para aquilo que eu ainda não sabia que estava a tentar ouvir.
O volume do E-280 foi descendo.
-75dB.
Depois -80dB.
Depois ainda mais.
Normalmente, este é o ponto em que a música começa a encolher como a pele dos dedos depois de tempo a mais debaixo de água. Continua audível, mas perde escala. Perde corpo. Perde capacidade de ocupar a sala.

Mas algo estranho aconteceu.
O piano continuou a ter peso. O contrabaixo manteve a estrutura de madeira e cordas. As peles da bateria continuavam a desenhar texturas no espaço.
Nada pareceu lutar para sobreviver.
A certa altura percebi que não estava a ouvir mais atentamente.
Estava a ouvir menos atentamente.
A música deixara de exigir esforço.
Não precisava de seguir o contrabaixo. Não precisava de procurar o contorno das notas. Não precisava de reconstruir mentalmente o espaço entre os músicos.
Tudo estava simplesmente lá.
Foi nesse instante que compreendi o que a Clearaudio Terra estava realmente a fazer.
Não estava a acrescentar informação.
Estava a remover aquilo que se encontrava entre mim e ela.
Há uma diferença entre ouvir baixo e ouvir pequeno.
Antes da Clearaudio Terra, baixar o volume podia significar perder contacto com a música. Ficava audível — e o Accuphase faz um excelente trabalho a baixos níveis de escuta — mas tornava-se menos convincente. Como se a imagem encolhesse e o corpo da música se afastasse alguns passos.

Com a grounding box no sistema, a escuta a baixo volume tornou-se mais completa. Menos pressão sonora, evidentemente. Mas não menos coerente.
Quando o fundo se limpa, não precisamos de empurrar tanto a música para a frente.
Quando há mais contraste, a informação aparece com menos esforço.
Quando o palco estabiliza, o cérebro trabalha menos para reconstruir aquilo que está a acontecer.
E quando o cérebro trabalha menos, passa a ser a música a trabalhar dentro de nós.
Com o E-280 perigosamente próximo do silêncio absoluto, continuava lá tudo.
A escala não desapareceu.
O corpo não se evaporou.
O detalhe não ficou escondido por trás de uma cortina.
A música manteve presença, foco e proporção sem eu precisar de transformar a sala num atentado ao descanso dos vizinhos.
Para quem vive num apartamento, numa cidade e rodeado por outras vidas que continuam para lá das paredes, isto não é um detalhe.
É liberdade.
Para quem faz sentido — e para quem provavelmente não
A Clearaudio Terra não é um produto universal. É importante dizê-lo antes que alguém transforme uma experiência concreta numa verdade universal.
Ambientes urbanos e sistemas complexos
Fez sentido no meu sistema. Fará sentido em sistemas com vários componentes, em ambientes urbanos, com ruído elétrico real e muitos equipamentos partilhando a mesma rede doméstica. Faz sentido para quem já tem um sistema resolvido e procura afinação fina — não revolução. Não há grounding box que substitua um bom casamento entre componentes.

Para quem provavelmente não vale a pena? Sistemas simples, com poucos componentes, ambientes eletricamente tranquilos, casas isoladas — ou utilizadores que esperam uma diferença de água para o vinho. Se a pergunta for “vou ouvir mais grave?”, a resposta honesta é: Não! Vais provavelmente ouvir um grave diferente.
Vais perceber que o ruído nem sempre se apresenta como ruído. Muitas vezes apresenta-se como ligeira tensão, palco menos definido, necessidade de subir mais o volume, escuta menos relaxada — uma pequena fadiga que nunca culpamos no sistema porque não sabemos onde apontar o dedo.
Com a Clearaudio Terra, no meu sistema, o dedo finalmente encontrou descanso.
A minha Conclusão

Não foi uma epifania instantânea. Foi uma evidência que se revelou. Um daqueles acessórios que se entendem mais quando saem do sistema do que quando entram — porque quando entram, removem; e quando saem, devolvem aquilo que já tínhamos aprendido a ignorar.
A Clearaudio Terra não transformou o meu sistema. Afinou-o.
Transformar é fácil de vender. Afinar é mais difícil de explicar. Mas quando acontece no sítio certo, pode ser mais importante — não porque mude a personalidade do sistema, mas porque lhe permite falar com menos ruído entre a intenção e o resultado.
Não é um produto que se compre por impulso. É um produto que se experimenta, e que eventualmente se faz compreender. E uma vez compreendido, vai ser difícil ignorar.
No fim, foi difícil não ter os tais novecentos euros naquele momento. A Clearaudio Terra foi devolvida ao fim de uma semana. Tal como prometido.

A Clearaudio Terra usada nesta review foi gentilmente e temporariamente cedida pela Ultimate Audio.

