Nos últimos anos, parte da indústria de Alta-Fidelidade parece ter escolhido um caminho de evolução: caber tudo na mesma caixa. Streamer, DAC, amplificação, entradas HDMI, correção acústica, aplicação própria, integração. Quanto mais um aparelho conseguir fazer sozinho, mais moderno parece. Seria natural esperar que o sucessor do best-seller PM6007 seguisse essa mesma lógica de “tudo incluído”? Não foi isso que a Marantz fez.

A marca apresentou o amplificador integrado MODEL 70 e o leitor CD 70, sucessores diretos do PM6007 e CD6007 — os dois modelos de entrada da marca que se foram tornando referências no segmento. Com eles, a Marantz fecha a renovação de toda a sua gama Hi-Fi, adotando de forma definitiva a nova linguagem visual que já tínhamos visto noutros componentes recentes da casa — a mesma estratégia de renovação por pares que a marca já vinha a seguir no resto do catálogo.
Até agora, nada que eu não pudesse resumir aqui em três linhas…
A pergunta que ninguém faz
Não há streaming embutido, não há app para controlar o aparelho a partir do sofá. Numa era em que praticamente todos os concorrentes diretos apostam em plataformas de streaming multi-room como argumento de venda, a Marantz lançou, de forma deliberada, um amplificador que recusa esse caminho.
Vale a pena parar aqui um segundo, porque isto é uma escolha.
Envelhecer devagar, ou envelhecer ao virar da esquina?
Uma leitura possível — e é a que me parece mais interessante — é que a Marantz está a separar aquilo que dura daquilo que se torna obsoleto. Um andar de amplificação bem construído, com uma boa fonte de alimentação e um transformador generoso, pode perfeitamente continuar a soar bem daqui a vinte anos. Já um módulo de streaming é outra conversa: depende de software, de serviços que mudam de dono, de codecs que podem cair em desuso, de aplicações que um dia vão deixar de receber atualizações. A eletrónica de um amplificador clássico tende a envelhecer com dignidade. A eletrónica de um streamer tende a envelhecer como um telemóvel.

Visto assim, o MODEL 70 não é um amplificador ao qual falta streaming. É um amplificador que recusa deixar o streaming definir o seu ciclo de vida.
Para quem não é o MODEL 70 (e é aí que fica interessante)
A decisão só faz sentido quando se olha para o resto da gama. Quem procura simplicidade absoluta, tudo integrado e controlado por telemóvel, já tem essa resposta dentro da própria Marantz: o MODEL M1 foi pensado exatamente para isso, numa linha lifestyle. Quem quer juntar o televisor, o streaming e o som stereo num único aparelho continua a ter o Stereo 70s. O MODEL 70 dirige-se, conscientemente, a outra pessoa: quem já tem — ou vai construir — o resto do sistema à sua medida, e quer que o amplificador faça bem uma coisa, em vez de fazer razoavelmente dez.
O que sustenta a filosofia
É só depois de estabelecida esta ideia que as especificações fazem sentido — e não o contrário.
O MODEL 70 usa uma topologia em Classe AB e entrega 50 watts por canal, apoiados por um transformador toroidal. Para quem tiver gira-discos, há um pré-amplificador MM incorporado — sem ser preciso comprar mais nada à parte. A ligação ao dia a dia moderno faz-se de forma pontual e funcional, não estrutural: HDMI ARC para melhorar o som da televisão sem sair do comando do amplificador, e o mesmo DAC a converter também o sinal Bluetooth, que é bidirecional — tanto para tocar música a partir do telemóvel como para ouvir em auscultadores sem fios.
O CD 70 segue a mesma lógica de “fazer bem uma coisa”: o mesmo DAC, chassis de dupla camada pensado para reduzir vibrações, e uma entrada USB-A frontal que aceita FLAC HD, ALAC, AIFF e DSD — a concessão mínima e necessária ao mundo dos ficheiros digitais, sem transformar um leitor de CD noutra coisa.
Ambos chegam às lojas a partir de meados de agosto, em acabamentos Preto e Prata Dourada, com PVP recomendado de 850 € para o MODEL 70 e 600 € para o CD 70.
A teimar no CD, desde 1982

Já aqui defendi que o CD não morreu, apesar de constantemente alguém lhe anunciar o funeral. O CD 70 volta a dar-me razão: a Marantz não precisava de lançar um leitor de CD novo em 2026, e lançou. Sou suspeito nesta matéria — continuo a defender que o formato tem lugar, num sistema a sério — e por cá isso vai continuar a notar-se: nos próximos dias chega aqui mais uma review de mais um leitor de CD.
O que ainda não sabemos
Por rigor, fica registado o que o comunicado de imprensa não esclarece: qual o chip DAC utilizado em ambos os aparelhos (há sempre quem se importe com este pormenor), e o que espera a marca fazer ao Stereo 70s, que ocupa hoje um posicionamento muito semelhante. Perguntas para outro dia.
A ideia que fica

Num mercado onde a inovação se mede, cada vez mais, pelo número de funcionalidades espremidas na mesma caixa, o MODEL 70 segue o caminho contrário. Em vez de se tornar o centro de um ecossistema digital, a Marantz propõe um sistema modular, em que cada componente sabe exatamente para que serve — e não tenta ser muito mais do que isso. Resta perceber se esta visão, deliberadamente menos vistosa, vai encontrar eco junto de um público cada vez mais habituado a aparelhos “tudo-em-um“. Ou se, no fim, todos vão simplesmente “atirar” o som do telemóvel por bluetooth para o DAC interno deste amplificador — e ficar bem assim.
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