Hoje chegou à minha caixa de correio eletrónico um comunicado de imprensa. A Audio Note (UK) — um dos fabricantes mais intransigentemente analógicos do planeta — foi escolhida como identidade sonora de um detective norueguês fictício chamado Ole Vik, protagonista de Sogn Murders, uma nova série Scandi Noir com Kristofer Hivju, mais conhecido do mundo como a fúria ruiva de A Guerra dos Tronos.

Li duas vezes. Não porque a notícia seja de abalar o mundo — nem sequer tive tempo de acompanhar a série, que teve gravações em aldeias portuguesas do interior montanhoso — mas porque algo me pareceu significativo. Se continuares a ler, logo o dirás.
O product placement em cinema e televisão é, regra geral, um desporto deprimente. As marcas pagam pela visibilidade; as produções embolsam o cheque; o público absorve o logótipo. A transação é mercenária e toda a gente sabe, e depois, sempre algo fica lá no nosso subconsciente. Mas de vez em quando faz-se uma escolha que parece casting e não comércio — onde o objecto escolhido nos diz algo sobre a personagem que o possui.
Ole Vik é um audiófilo dedicado. A produtora foi à procura de uma marca que correspondesse à sua “mentalidade puramente analógica“. Não ligaram à Sonos. Não ligaram à Bang & Olufsen. Ligaram à Audio Note.

Isto não terá sido acidente. É uma nota de personagem escrita a escopro no granito.
Penso no que a Audio Note significa para quem a conhece: uma recusa de atalhos digitais, um compromisso com o caminho longo e dificultado das válvulas e transformadores enrolados à mão, uma certa teimosia face a um mundo que em grande parte seguiu em frente. Teimosia agora imitada por alguns. Não há nada de casual em ter a Audio Note. É uma declaração de prioridades. Imagino o cliché: polícia solitário, casamento destruído, possivelmente devido à custa da vida de detetive, e da falta de compromisso teimosa com a cara metade em relação ao seu equipamento de reprodução musical.

E agora este perfil — obsessivo, analógico, sem pressa, ligeiramente deslocado no presente — encontrou o seu espelho fictício num detective escandinavo. O que faz um estranho sentido. O género Scandi Noir funciona exactamente com essas qualidades: melancolia, paciência, desconfiança das respostas fáceis, uma atenção quase perversa à textura e à atmosfera. O detective que resolve crimes por ouvir com atenção aquilo que os outros dispensam. O amplificador que revela o que outros equipamentos mais comprometidos escondem.

Ainda não sei que equipamentos aparecem em cena, nem se vai ser mais do que cenário de bom gosto. Mas fico à espera, ingenuamente, que alguém da produção tenha pensado bem — que Ole Vik realmente ouve, que a câmara demora no brilho de uma válvula, que a música é fundamento para a trama de alguma forma.
Porque a alternativa — Audio Note apenas como papel de parede — seria, ela própria, um crime.

Sogn Murders está disponível na Noruega, Finlândia e Dinamarca. O lançamento no Reino Unido e nos EUA está previsto para mais tarde este ano.

