Check out the Lyric Ti100 MkII review & tube rolling report in English
O Lyric Ti100 MkII é um integrado single-ended, classe A, valvulado — e foi, sem qualquer exagero retórico, a muleta emocional que selou definitivamente a minha rendição às colunas point-source omnidirecionais Duevel Bella Luna. Sem desmerecer as colunas, claro. Mas estamos perante um amplificador com um dom raro: não se limita a reproduzir música — reconfigura o ouvinte. Audiófilos “empertigados” incluídos. Poetas ocasionais também.
Após o primeiro exemplar com que tive o prazer de conviver, gentilmente cedido por um amigo que merece, sem sombra de dúvida, pelo menos uma estátua em Pedra de Ançã — qualquer coisa menos seria ingratidão histórica — chegou o segundo, cedido para review pelo representante da marca na Península Ibérica. Passei um mês glorioso com este amplificador e aproveitei para fazer tube rolling com três pares diferentes de válvulas casadas.
O Camaleão a Válvulas

O primeiro Ti100 MkII que acompanhei vinha equipado com válvulas KT170. Mas aqui reside parte da magia de alguns amplificadores valvulados: o Ti100 aceita EL34, KT77, KT88, 6550, KT120, KT150 e KT170, oferecendo uma latitude de afinação raramente vista num integrado single-ended contemporâneo.
Com ajuste manual de bias (entre 50 e 125 mA, conforme as válvulas) e seleção de feedback (baixo, médio ou alto, a 4 ou 8 ohm), é possível extrair seis assinaturas sonoras distintas por cada par de válvulas. Não é um truque de marketing. É uma ferramenta real, precisa e musical.
Aqui reside o génio — e o perigo — do Ti100 MkII: mais do que impedâncias nominais ou números em fichas técnicas, manda o disco que está a tocar… e, sim, o estado de espírito. Há válvulas que pedem introspeção. Outras exigem palco. Outras decretam: “Silêncio, que se vai cantar o Fado!”.
A Pergunta Peluda
A experiência inicial com as KT170 e as Bella Luna foi reveladora. Mas impôs-se a pergunta inevitável: como se comportaria o Ti100 MkII com colunas mais “terrenas”, como as minhas Revival Atalante 3?
O desafio foi aceite. O segundo Ti100 MkII chegou entretanto à Torre Bigodes — desta vez em cinzento, não que a cor faça diferença — acompanhado por um conjunto completo de válvulas casadas KT120, um par de KT150 e outro de KT170. Pronto. Tube rolling a sério. A narrativa ganhava, finalmente, espessura dramática.
O que o Ti100 faz (antes de mexermos nas válvulas)?

O Lyric Ti100 MkII apresenta uma assinatura que descrevo como neutro-orgânica: transparente, refinada no timbre e dotada de uma autoridade que torna irrelevante o número “20”, referente aos watts, impresso na ficha técnica.
Sim, são vinte watts. Mas são vinte watts single-ended, classe A, valvulados — daqueles que entregam corrente, controlo e densidade harmónica de forma contínua, não episódica. Os transformadores deste amplificador — pelo peso — suspeito que sejam motores de Panzers da Segunda Guerra.
Resultado: o grave é cheio e tenso. O médio, denso e articulado. O agudo, aberto, limpo e refinado. A energia não nasce de brilho artificial nem de impacto fácil, mas de micro e macrodinâmica reais, sustentadas.
Mesmo com as Atalante 3 — colunas honestas, mas não ideais, pelo menos no papel, para esta tipologia de amplificador — o controlo é exemplar: graves elásticos, ataque-travão preciso, corpo sem gordura. Nada colapsa. Nada se desfaz.
O Carácter
O carácter do Lyric é transparente, mas assumidamente eufónico no melhor sentido da palavra. Revela textura, timbre e micro-informação com fluidez natural, sem jamais resvalar para o clínico ou para o analítico desalmado.
A macrodinâmica é convincente, com ataques orquestrais de impacto físico real. O palco constrói-se com verdadeira volumetria: largo, profundamente recuado e alto, com imagens estáveis e um silêncio de fundo suficiente para deixar a música respirar.
As vozes surgem densas, expressivas, inequivocamente humanas. Os instrumentos revelam materiais e técnicas com clareza: arco, palheta, dedo, ar. Tudo está lá — não como efeito, mas como consequência natural de eletrónica bem pensada e materiais criteriosamente selecionados.
Tube Rolling — Um Filme Sonoro em Nove Atos

É precisamente por o Ti100 MkII ter um carácter tão sólido e coerente que o tube rolling se torna relevante: não para o reinventar, mas para o afinar — ao gosto de cada um, ou de cada ocasião.
A partir daqui, despe-se o engenheiro. Fica o ouvinte.
Antes de entrar faixa a faixa, importa contextualizar: as diferenças entre as válvulas testadas — KT120, KT150 e KT170 — não são de água para o vinho. Estão lá, são claras e consistentes, mas ocorrem dentro de uma mesma identidade sonora. Dito de outra forma: a distância entre o Lyric Ti100 MkII e o amplificador residente (o Accuphase E-280), ou entre este e os monoblocos vintage que estiveram por cá em simultâneo, é significativamente maior do que a distância entre cada par destas válvulas entre si.
Ainda assim, este exercício é fundamental para perceber até que ponto é possível afinar o carácter do amplificador através de tube rolling, adaptando-o não só ao sistema, mas também ao gosto pessoal e ao repertório musical.
Soyeusement — Michel Godard
Comecei por Godard porque aqui se testa tudo ao mesmo tempo: timbre, espaço, textura e respiração. Com este tema, as personalidades começam a revelar-se de forma inequívoca.
Com as KT170, o som abre-se em todas as direções: agudos extensos, limpos, com ar e excelente resolução. O palco sonoro ganha escala e profundidade, assumindo um carácter tridimensional e holográfico. A apresentação é autoritária, segura, sem nunca soar forçada.
As KT120 trazem a música mais para a frente. A massa sonora torna-se mais líquida e direta, com graves mais densos e médios mais cheios. Os agudos recuam: são mais suaves e menos incisivos. Há menor separação e uma ligeiríssima compressão perceptível, mas também uma fisicalidade muito própria, quase arquetípica da ideia clássica de single-ended. O palco é largo, mas menos profundo.
As KT150 posicionam-se de forma exemplar entre as duas: boa extensão nos agudos, embora menos acutilantes do que nas KT170; graves controlados; palco com boa largura e profundidade — mais profundo que nas KT120, menos expansivo que nas KT170. O equilíbrio entre visceralidade e autoridade é aqui particularmente feliz.
Se Soyeusement revela carácter e espacialidade, Stimela testa nervo, dinâmica e a capacidade de manter coesão quando a música ganha corpo e urgência.
Stimela (The Coal Train) — Hugh Masekela (Live)

Neste tema, a hierarquia torna-se mais clara.
As KT150 oferecem a leitura mais completa: excelente separação instrumental, graves rápidos e controlados, trompete com textura e brilho sem agressividade. A micro e macrodinâmica estão muito bem articuladas. O efeito é físico e emocional: relaxamos nos momentos de pausa, e inclinamo-nos para a frente quando a banda explode.
Com as KT120, a voz de Masekela surge mais próxima, quase frontal. Os pratos da bateria perdem alguma resolução e arejamento, ganhando um ligeiro grão. O diálogo entre instrumentos é mais evidente, ainda que a diferenciação individual seja superior nas outras válvulas. A dinâmica é inferior e nota-se uma compressão muito subtil nos trechos mais complexos. Em contrapartida, há uma fluidez acrescida que torna a audição particularmente agradável.
As KT170 soam majestosas: graves firmes e articulados, trompete limpo e incisivo, pratos de bateria extensos, sem grão e com resolução excecional. A dinâmica é explosiva e absolutamente livre, evidenciando as reservas de potência do amplificador. O palco é vasto, tridimensional e envolvente. Transientes rápidos e emocionantes. Uma apresentação autoritária no melhor sentido do termo.
Depois da pulsação humana e do calor do palco, era tempo de testar escala, autoridade e controlo absoluto.
Toccata and Fugue — J. S. Bach
Aqui, o órgão de tubos serve de teste definitivo à escala e ao controlo.
Com KT170, o instrumento desce a níveis cavernosos, quase sísmicos, sem nunca perder compostura ou definição.
As KT150 também descem muito fundo, ainda que com menos dramatismo apocalíptico. A escala continua a ser impressionante.
As KT120 mantêm a solenidade e o impacto físico da obra. Há menos separação e resolução face às outras duas, e o grave não desce tão baixo, mas o carácter solene e corpóreo permanece intacto.
Depois da monumentalidade do órgão, procurei o oposto: intimidade, verdade e proximidade emocional.
Sei de um Rio — Camané

Neste registo, a narrativa muda de tom.
As KT120 brilham pela organicidade e fluidez da voz. É aqui que mais facilmente nos aproximamos da experiência íntima de uma sessão de fado ao vivo.
As KT150 trazem mais ataque, escala e resolução ao acompanhamento, redistribuindo o protagonismo. A voz ganha maior micro-detalhe e nuances, tornando evidentes os momentos de maior empenho emocional. O ganho em profundidade de palco é particularmente bem-vindo.
As KT170 acrescentam rapidez de transientes e impetuosidade, mas sacrificam ligeiramente a organicidade vocal. Nesta faixa, o equilíbrio das KT150 acaba por se impor.
Do fado declamado passei para a voz projetada para a sala inteira do Teatro alla Scala de Milão — aqui, a emoção mede-se em escala.
Tosca, Ato III — “E lucevan le stelle” (Puccini)
Na histórica gravação de 1953, com Giuseppe Di Stefano e a Orchestra del Teatro alla Scala dirigida por Victor de Sabata, as KT170 fazem jus à escala e à carga emocional da obra, projetando-a com autoridade e impacto.
As KT150 impressionam pelo compromisso alcançado: toda a emoção da interpretação e toda a escala orquestral são transmitidas de forma avassaladora, sem excessos.
As KT120 apresentam um palco mais plano e menor dinâmica. A voz do tenor ganha um ligeiro toque adicional de organicidade, mas nos extremos começam a ficar para trás.
Da carne e do sangue desta ópera gravada em 1953 avancei para a voz de Laurie Anderson.
Beautiful Pea Green Boat — Laurie Anderson

Com as KT120, o som é musculado e direto. Os graves descem com autoridade e o carácter onírico, íntimo e nostálgico da faixa manifesta-se plenamente. Se nunca tivesse ouvido as outras válvulas, seria fácil ficar plenamente satisfeito.
As KT170 revelam tudo: nuances vocais, efeitos subtis, ataque e transientes mais presentes, dinâmica mais evidente. Para quem quer ouvir tudo, absolutamente tudo, são imbatíveis.
As KT150 confirmam-se como o ponto de equilíbrio: combinam a magia vocal e a fluidez das KT120 com a abertura, resolução, palco e velocidade muito próximas das KT170.
Depois da introspeção e do onírico, era inevitável chamar o corpo à sala.
Since I’ve Been Loving You — Led Zeppelin
As KT150 mostram-se particularmente competentes neste registo cru e emocionalmente denso. Mantêm o ambiente quase claustrofóbico da gravação, mas com controlo e musicalidade. São um excelente compromisso para sistemas de nível médio-alto.
As KT170 trazem mais extensão de agudos e um ligeiro ganho de escala, mas os ganhos face às KT150 são marginais.
As KT120 ressurgem com força: maior fluidez e um carácter mais orgânico tornam esta audição menos fatigante e mais envolvente. Para quem não procura radiografar cada gravação, podem ser as mais gratificantes em sessões prolongadas.
Se o rock testa impacto e fluidez, Shostakovich testa organização, densidade e a capacidade de lidar com massas sonoras complexas.
Allegretto poco moderato — Shostakovich (Boston Symphony / Andris Nelsons)

As KT120 apresentam maior fluidez e suavidade nos agudos, reforçando a musicalidade global.
As KT150 colocam mais orquestra dentro da sala: maior abertura, detalhe, separação, foco e profundidade de palco. Graves mais firmes, maior resolução e velocidade. Aqui, o envolvimento emocional é ligeiramente superior.
As KT170 estão no seu elemento: detalhe, escala, pujança, velocidade e dinâmica em abundância. Absolutamente deliciosas.
Depois da tensão e da densidade emocional, era tempo de verificar se o amplificador ainda sabia sorrir.
Tuxedo Junction — Kenichi Tsunoda Big Band
Com KT170, a capacidade de projetar uma big band inteira numa sala com menos de 25 m² é surpreendente. Dinâmica, velocidade e transientes absolutamente cativantes.
As KT120 oferecem maior suavidade e fluidez, ideais para ouvidos mais sensíveis.
As KT150 apresentam um compromisso interessante entre velocidade e organicidade, mas nesta faixa específica as KT170 saem claramente vencedoras.
Depois de tantas mudanças de género, escala e intenção, torna-se evidente que o Lyric Ti100 MkII não privilegia um tipo de música — privilegia coerência. O carácter mantém-se, o que muda é a forma como esse carácter se articula. É isso que torna o tube rolling verdadeiramente relevante: não como correção de defeitos ou fuga para a frente, mas como escolha consciente. Escolha de atitude, de enfoque e, em última instância, de como queremos que a música nos chegue.
O Meu Veredito

Cada faixa, cada género, cada ocasião pedem uma válvula diferente. Tube rolling no Lyric Ti100 MkII não é um capricho. É uma ferramenta real de afinação musical.
Este amplificador não te diz como ouvir música. Convida-te a escolher como a queres viver.
E fá-lo com 20 watts gloriosos, honestos e absolutamente suficientes. Se alguém disser que não chegam, empresta-lhe o Ti100 por uma tarde. Vais recebê-lo de volta com um pedido de desculpas.
Agora, deixem-me ficar com Vicente Amigo e as KT150. Sem ironia. Sem exagero. Sem reservas.
P.S. — à data que escrevo estas linhas o importador da marca ainda não pediu o amplificador de volta. Estou a estudar opções logísticas. Mudar de casa continua seriamente em cima da mesa.
Especificações
A Banda que tocou com o Ti100 MkII
O Lyric Ti100 MkII cedido para esta review foi gentilmente cedido pela Soundit

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