Primeiro que tudo.
Aqui, em MoustachesToys, um artigo só ganha o direito a ser chamado de review quando o equipamento passou pelo menos um mês na minha sala, integrado no meu sistema de referência, o Benchmark Stache.
Essa é a minha regra.
Não é propriamente científica e, certamente, não é a única forma de avaliar equipamento de áudio. Mas é a forma que conheço de separar o entusiasmo de um primeiro contacto, da realidade de conviver, na prática, a pelo menos médio prazo, com um equipamento de áudio.
Desta vez foi diferente.
Durante a minha visita à fábrica de Worthing e ao centro de desenvolvimento de Southwater da Bowers & Wilkins, tive oportunidade de ouvir a nova série 800 D5 frente-a-frente com a anterior, a geração D4.

Sentei-me durante uma manhã na réplica da sala de audição original de John Bowers e ouvi as duas gerações, lado a lado.
Portanto, não. Isto não é uma review.
É, isso sim, um frente-a-frente.
Série 800 D5 vs. D4

Esta sala de escuta está separada do edifício principal do Centro de Desenvolvimento da marca britânica. A estrutura assenta numa fundação própria de betão, fisicamente separada do edifício, com três camadas entre a sala de escuta e o mundo exterior.
Olhando pela janela, conseguimos mesmo ver essas camadas.
Pode parecer engenharia numa quantidade quase excessiva, dedicada a conseguir algo extraordinariamente difícil de conseguir: silêncio. Ou, pelo menos, o mais próximo possível dele que podemos conseguir.

A sala é uma réplica da sala de escuta de John Bowers dos primeiros tempos da empresa, completa inclusive com o tratamento acústico que era utilizado na altura pela BBC. É difícil não sentir que há ali um pouco de saudosismo naquele espaço.
Mas talvez seja precisamente esse o ponto. Quando a música começa, a sala deixa de ser um museu e passa a ser um instrumento.
E eu levava comigo uma pergunta:
O que mudou, realmente das D4 para as D5?
A D4 não era uma geração fácil de melhorar. E, no meu caso, havia ainda outro problema. O meu problema com o tweeter. Na verdade, com todos os tweeters da B&W.
Pronto. Está dito.
Por tudo aquilo que admiro na série 800, sempre houve qualquer coisa na forma como a assinatura sonora dos tweeters da B&W que se mete entre mim e a música. Só um modelo conseguiu alguma vez mexer comigo — e de que maneira!
As 801 D4 Signature.

Ouvi-as uma vez com algum do melhor equipamento que consigo imaginar a alimentar estas colunas: célula Ikeda Akiko, montada num gira-discos Clearaudio Master Jubilee com o braço de topo de gama da marca, pré de phono Accuphase C-57, com pré e power da mesma marca.
Toda essa artilharia conseguiu domar a assinatura sonora do Diamond Tweeter.
Funcionou.
Pelo menos comigo, funcionou.

Desta feita, as B&W da série 800 estavam a ser alimentadas por amplificação da Gryphon, pré-amplificador Commander e monoblocos Apex, com transporte de CD Denon e DAC MSB.
Uma combinação menos tolerante, tendo em conta as minhas sensibilidades particulares aos agudos. Por isso, sentado na sala de John Bowers, não estava propriamente a tentar perceber se as D5 tinha mais detalhe do que as D4. Queria saber se se tinham tornado mais fácil de ouvir.

E porque sei que provavelmente não estão dispostos a aturar-me durante muito mais tempo, e não quero que desistam deste artigo para fazer scroll no TikTok, vou poupar-vos a um compêndio das alterações técnicas sofridas pelas D5. Andy Kerr já nos tinha explicado essas alterações, a nós, grupo de jornalistas, no dia anterior, na fábrica. Éramos quatro portugueses nesta visita, por isso irá have certamente gente a escrever sobre a parte técnica, provavelmente com muito mais talento para isso do que eu.
Se vieram aqui à procura da espessura de uma determinada camada de amortecimento, ou de quantos milímetros alguma coisa mudou, lamento, mas não é disso que eu estou a falar. Quero falar de como as colunas soaram. E, mais importante ainda, quero falar de como me fizeram sentir ao ouvir música. Por isso, as D5 tinha um teste muito particular pela frente. Mais resolução seria bem-vinda. Mais extensão, mais controlo, mais escala — tudo bem-vindo. Mais tudo.
Mas o que é que mudou, afinal?
Foi essa a pergunta que levei comigo para dentro da sala. E há um detalhe importante antes de chegarmos à música: em cada caso, comparamos directamente cada par de D5 com o correspondente D4.
Ou seja, quando passei da 805 para a 804, depois para a 802 e finalmente para a 801, não estava simplesmente a comparar colunas diferentes. Estava a tentar perceber o que tinha mudado entre gerações.
Harry Belafonte — A Fool for You
Entretanto Harry Belafonte começou a cantar.
É difícil imaginar um ponto de partida melhor se queremos perceber o que mudou na forma como uma coluna reproduz a voz humana. Com as 805, as colunas de suporte da gama, aqui a primeira impressão foi imediatamente a diferença na textura nas vozes.
O baixo tinha mais textura. O timbre da voz de Belafonte estava mais bem definido. Havia mais definição lá em baixo, certamente, mas o que me interessou mais foi a sensação de que a própria voz parecia mais credível.
Depois vieram as mais pequenas colunas de chão, as 804.



A 804 D5 tem uma câmara de alumínio escondida dentro da caixa, destinada a conseguir um efeito semelhante ao do Turbine Head, das irmãs mais crescidas da gama, nos médios. Naturalmente, os meus ouvidos foram à procura daquilo que podia sair dali.
A diferença não foi simplesmente mais. Foi uma correcção gradual da impressão tonal que estava a receber da voz de Belafonte. A apresentação tornou-se mais natural.
Depois vieram as 802.
Há um ponto em que descrever a diferença como uma melhoria na resposta em frequência ou na resolução simplesmente deixa de ser suficiente ou sequer verdadeiramente relevante, pelo menos para mim. Havia mais potência imediata. Mas, mais importante, havia naturalidade. Mais carne no assador.
E uma sensação mais orgânica. Esta última expressão pode parecer estranha num texto sobre som, mas é exactamente isso que quero dizer. A voz parecia menos uma colecção de frequências reproduzidas e mais algo vindo de uma pessoa que estava ali, à nossa frente.
Depois vieram as 801.
E aqui, para mim, o salto foi brutal. A escala mudou. Mas mudou também outra coisa. O meu desconforto com os agudos desapareceu por completo. Durante um momento tive passou por mim um pensamento inconveniente de que talvez a B&W queira simplesmente que toda a gente compre a 801.
Ou talvez tenha colocado todo o esforço no topo da gama e, à medida que foram descendo, começaram a sujeitar-se a pequenos compromissos em cada degrau. Não faço ideia.
Phoebe Bridgers — DVD Menu
Esta é uma proposta completamente diferente.
O início desta faixa está cheio de “sons“, sons sobrepostos e alterações subtis de densidade. É o tipo de gravação que pode facilmente transformar-se numa salada russa se o sistema não conseguir manter tudo sob controlo. Com as 805, as D5 trouxeram melhores inflexões à voz de Bridgers. Mais clareza. Palco sonoro melhor definido. Mais foco.

Com as 804, a melhoria passou a ter menos que ver com os elementos individuais e mais com a relação entre eles. Havia melhor separação dentro daquela mistura complexa de sons. As coisas deixavam de se atropelar umas às outras com tanta facilidade.
Depois chegaram as 802.
A apresentação tornou-se mais densa. Mais física. Mais carne à volta do osso. Foi aqui que a comparação começou a ficar realmente interessante. As D5 não estavam simplesmente a revelar mais detalhes. Estavam a tornar mais fácil perceber a organização da gravação.
E quando chegámos às 801 D5, qualquer coisa encaixou.
Finalmente, o início daquela faixa terrivelmente complicada fez sentido. As camadas estavam mais organizadas. Os diferentes sons ocupavam os seus próprios espaços. E, no meio de tudo aquilo, a voz de Phoebe Bridgers continuou a ser aquilo que interessava. Que voz! Foi um daqueles momentos em que o jargão “audiófilo” começou a desvanecer na minha cabeça.
Deixamos de ouvir as colunas. Ouvimos música. É isso, no fundo, que quero que uma coluna faça.
Agnes Obel — The Curse
Se DVD Menu foi sobre organização, The Curse, de Agnes Obel, foi sobre espaço.
Com as 805, houve mais precisão e mais foco.
As altas frequências continuaram reconhecíveis dentro da mesma família tonal, mas as D5 parecia colocar os elementos individuais num foco mais nítido.
As 804 deram mais um passo.

Houve consideravelmente mais resolução. Mais espaço entre as camadas. Ou, talvez de forma mais correcta, mais silêncio entre cada camada. Esta distinção importa. É fácil descrever resolução como “mais detalhe”. Mas ouvir mais espaço entre as coisas é diferente. Muda a forma como toda a gravação soa.
Uma boa comparação poderá ser um desenho técnico em explosão, daqueles em que um objecto complexo é desmontado e cada componente aparece separado, para percebermos como tudo encaixa. Agora imaginem fazer isso com som. Não desmontar a música. Apenas tornar mais fáceis de perceber as relações entre os seus diferentes elementos. Talvez a conclusão seja que nos fomos habituando a chamar de noise floor baixou de alguma forma. Não sei. Só sei que parecia haver mais espaço à volta da música.
As 802 acrescentaram outra coisa.
Transientes mais rápidos. Decaimentos mais longos. Mais peso. Mais uma vez, mais carne no assador. A música tinha-se tornado mais substancial sem simplesmente ficar mais alta ou mais agressiva.
E depois vieram as 801 D5.

A escala, dramaticamente maior. Tudo se abriu. E a palavra que me veio à cabeça foi simples: visceral. Mais tudo. Não simplesmente mais graves. Não simplesmente mais detalhe. Mais experiência.
A esta altura, a diferença entre D4 e D5 tinha-se tornado menos interessante para mim do que a diferença entre os vários modelos da série 800. As colunas maiores não estavam simplesmente a produzir mais som. Estavam a alterar a relação física e emocional entre a música e quem a ouve.
Depois veio a batalha
A faixa final, só reproduzida pelas 801 D5, foi Dacoit Duel, de A.R. Rahman. A primeira coisa que me impressionou foi o decay: Fabuloso. Se conheces esta faixa e já tiveste oportunidade de a ouvir num sistema à altura, sabes porque é que importa.

E depois há a escala da coisa. O ataque foi brutal. Imediato. Cinematográfico. Durante um breve momento, ridículo eu sei, tive vontade de pegar numa lança e juntar-me à batalha imaginária. É provável que não encontrem esta frase na documentação técnica da Bowers & Wilkins. Mas foi o que aconteceu. E, sinceramente, prefiro contar-vos isso a escrever mais um parágrafo sobre resposta de transientes.
Então, o que mudou?
É aqui que as coisas ficam complicadas. Não tenho qualquer dúvida de que as novas D5 representam uma evolução significativa. As diferenças não se resumem a uma alteração de especificações ou a meia dúzia de números cuidadosamente escolhidos numa ficha de produto. Ao longo das faixas, ouvi mais precisão, melhor foco, informação tonal mais convincente e, à medida que os modelos aumentavam de tamanho, progressivamente mais escala e envolvimento físico.
Curiosamente, houve momentos em que senti que estava a ouvir menos detalhe. Ou talvez menos daquele tipo de detalhe a que gosto de chamar de “detalhe de demonstração”.
E talvez esse seja precisamente o ponto. As 801 D5 foram, em particular, uma experiência extraordinária.
Mas. Há sempre um mas.
O tweeter.

Quem me segue há algum tempo já sabe que tenho uma sensibilidade particular aos agudos quando pronunciados. Algumas colunas fazem-me sentir como se alguém estivesse a escarafunchar com uma chave de fendas dentro dos meus ouvidos. Pessoalmente, é um problema. E este problema, com as B&W, está lá. Pelo menos com este nível de pressão sonora.
Mas não com as 801 D5, pelo menos não nesta sessão. E com os outros modelos? Sim.
A 801 D5 foram as únicas que, para mim, passaram completamente ao lado deste efeito — tal como as 801 D4 Signature tinham conseguido antes delas.
E, mais uma vez, não consigo deixar de pensar se isso acontece porque a 801 simplesmente tem tudo a trabalhar a seu favor, ou se a B&W encontrou no topo da gama qualquer coisa que se vai tornando progressivamente mais comprometida à medida que descemos pela família. Não sei. E não quero fingir que sei.
É precisamente por isso que isto não é uma review.
Se tivesse entrado naquela sala determinado a dizer-vos que as D5 foram melhores, teria encontrado facilmente provas suficientes para sustentar essa conclusão. E houve muitas. Mas um frente-a-frente é interessante precisamente porque também pode revelar aquilo que não mudou. E isso deixa-me numa posição bastante interessante.
Saí da sala de escuta da B&W globalmente impressionado com a geração D5. Mas também saí a querer mais. Mais desta experiência.
Porque agora quero ouvir um par das D5 num sistema que conheço intimamente. Numa sala cujo comportamento conheço. Com electrónica que conheço. Com discos que toco frequentemente. E estou genuinamente ansioso por isso.
As 801 D5 já me mostraram que conseguem produzir esta sensação de escala, organização, textura e envolvimento físico e emocional, numa sala desenhada há décadas, à volta da ideia de John Bowers sobre aquilo que uma sala de escuta deveria ser.
Agora quero saber o que aconteceria com um par da série 800, ao nível que fizer sentido, para o meu próprio mundo. Será uma experiência diferente. E talvez, finalmente… Quem sabe.
Uma review.


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