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Vinil contra digital. As primeiras Ultimate Sessions da temporada


Se o digital nos pode oferecer mais resolução, porque é que tantos continuam a preferir o vinil?

Conheço um casal em que o homem é benfiquista, e a mulher? portista. Ambos davam importância ao clubismo que já nessa altura eu considerava desproporcionada. Adivinharam! Os dias de futebol não eram fáceis, e suspeito que o homem dormia no sofá nessas noites. Outra disputa capaz de dividir quem leva a música a sério é a velha questão: vinil ou digital? Não tenho a pretensão de resolver agora uma discussão que atravessou gerações de audiófilos, fóruns, salas de audição e, se calhar, também alguns casamentos.

No passado sábado, no Porto, a Ultimate Audio pareceu querer juntar lenha a esta fogueira. Estas primeiras Ultimate Sessions da temporada colocaram à disposição dos amantes do áudio duas salas, duas combinações de equipamentos e duas experiências bastante distintas. Durante a tarde em que estive presente, ambas estiveram sempre cheias. O que, convenhamos, é uma boa notícia para quem ainda acredita que ouvir música merece mais do que uns segundos entre duas notificações do telemóvel.

Bowers & Wilkins 802 D5

Numa sala, o Aurender A1 15th Anniversary, streamer com conversor integrado, montado com as B&W 802 D5, já afloradas por aqui em frente a frente entre a geração D5 e D4 da série 800 do fabricante britânico. Conjunto amplificado pela Electrocompaniet, com amplificador de potência AW-800 e pré EC-5, com cablagem Turnbull e Siltech, e tratamento de corrente Isotek Aquarius. Na outra, as Revival Atalante 7 Évo, amplificadas pelo integrado classe A a válvulas Jadis I-70, (que terá direito a análise publicada aqui nos próximos dias), tocaram exclusivamente discos de vinil, que rodaram em combinação gira-discos Performance DC, braço Satisfy Cardan, e célula MM Artist ebony v2, todos da Clearaudio. O pré de phono foi o ECP2 MkII, da Electrocompaniet. A cablagem esteve a cargo da Siltech e da Oyaide, e a alimentação pela régua Isotek Sirius.

O cenário estava montado. Qual terá saído vencedor desta partida?

Primeiro Round: as B&W 802 D5 e o argumento do digital

B&W 802 D5 + Electrocompaniet AW-800 + EC-5 + Aurender A1 15th Anniversary

A sala “principal” da Ultimate Audio no Porto, tem a acústica pensada especificamente para sistemas stereo, e teve nesta Session como protagonistas as B&W 802 D5. Na análise que fiz do frente a frente entre as gerações D4 e D5 da Série 800, depois de ouvir as colunas no Centro de Desenvolvimento da B&W, concluí que a nova geração deu um salto qualitativo. Mais do que impressionar pelas características técnicas, pareceu-me preocupar-se em criar uma ligação mais forte entre o ouvinte e a música.

Mas não é disto que muitos de vós que leram o artigo estarão à espera, pois não? Pois, eu sei. Nesse artigo também falei da forma como, com a exceção das 801, cujo equilíbrio me pareceu notável, fiquei com a impressão de que os tweeters dos restantes modelos tendem a querer tomar a dianteira em relação ao resto do espectro musical, pelo menos no sistema que ouvi em Southwater.

Na sala “digital”, com amplificação Electrocompaniet e fonte Aurender, também houve momentos em que teria preferido que os tweeters das B&W se fizessem notar um pouco menos. Adío Querida, de Noa Noa, foi um desses casos. Apesar de tudo, saí deste evento com impressões melhoradas em relação ao que ouvi na própria sala do fabricante. Fica a velha discussão sobre o casamento entre equipamentos e a importância do tratamento acústico. No áudio, a verdade de uns não é necessariamente a verdade de outros. Mas esta discussão fica para outras núpcias. A leitura desse artigo ajudará a contextualizar estas observações e a perceber melhor o que quero dizer sobre a assinatura sonora da 802 D5 e do resto da gama, sem me repetir.

E depois chegaram os Dire Straits. Em You and Your Friend, a slide guitar pareceu deslizar no espaço da sala em direção a mim. Não com a mesma capacidade que já ouvi na mesma sala umas Avantgarde, é certo, mas também com mais corpo que com as cornetas alemãs.

Estas diferenças interessam não porque queira resumir isto a uma competição de atributos. As caraterísticas que umas colunas conseguem explorar de forma extraordinária, outras são capazes de apresentar de maneira diferente. A questão é perceber o que cada combinação faz à música, e como o gosto de cada um se encaixa.

Por falar em cornetas, Take Five, de Kenichi Tsunoda Big Band, trouxe mais um exemplo de como as 802 se aproximaram de um território em que as Avantgarde me tinham impressionado, também nesta sala. Os metais tinham um ataque incisivo, quase afiados como um sabre japonês.

Mas, mais uma vez, em corpo, parabéns às 802. E a escala!  Confirmação do que já tinha ouvido com os Apex da Gryphon em Inglaterra. A escala tornou-se ainda mais evidente com La fille mal gardée, Storm and Finale pela Orchestra of the Royal Opera House, dirigida por John Lanchbery. Palco a encher a sala de parede a parede, com os diferentes naipes perfeitamente delineados em camadas. Estivemos realmente com a orquestra à nossa frente.

Estes são alguns exemplos concretos do que ouvi que me ficaram na memória. E já tenho uma conclusão provisória: um sistema digital pode proporcionar uma experiência de escuta que vai muito além da procura de detalhe. Corpo, escala e envolvimento também contam.

Até aqui, o digital não parecia precisar de ajuda.

Mas a guerra ainda vai a meio.

Segundo Round: Francisco, Satchmo e o vinil

Revival Atalante 7 Évo + Jadis I-70 + Clearaudio Performance DC + Satisfy Cardan + Artist ebony v2 + Electrocompaniet ECP-2 MkII

Sala 2, pensada para demonstrações de home-theatre, logo com absorção 3D. Aqui a diferença fundamental em relação à primeira sala: só se reproduziu vinil. Outra calma. Lados inteiros. Meia luz.

Francisco brindou-nos com uma boa seleção de jazz. Começou por True Ballads de Archie Shepp Quartet, passou por Voodoo de Sonny Clark Memorial Quartet, e chegou a Satchmo Plays King Oliver de Louis Armstrong.

Claro que não tivemos a mesma resolução de um sistema digital. Claro que não.

O que tivemos? Muita, muita música. No sentido orgânico da expressão.

Satchmo como, para mim, deve ser ouvido. Já tentei em casa, mas infelizmente não tenho este disco. Ouço por vezes uma faixa ou outra no Qobuz, mas não é a mesma coisa.

A música prende. Não à cadeira, pois quando é para dançar, apetece dançar. Se não for para dançar, pelo menos os pés não ficam quietos.

Não, não vão encontrar essa capacidade nas especificações técnicas de um gira-discos ou de uma célula. Também ninguém sabe como a traduzir numa medição. Apenas foi o que senti.

A seleção de Francisco continuou por LaFaro de Brian Bromberg, pelo Concerto para Violino de Brahms, por Jascha Heifetz e Fritz Reiner, e por Autumn Leaves de Jacintha. Houve ainda espaço para Dead Bees on a Cake de David Sylvian.

Revival Atalante 7 Évo + Jadis I-70 + Clearaudio Performance DC + Satisfy Cardan + Artist ebony v2 + Electrocompaniet ECP-2 MkII

Não vou atribuir tudo o que senti, isoladamente, à combinação do Jadis com as Atalante 7, à célula ou ao pré de phono. Estive a ouvir um sistema completo, com uma fonte analógica, uma determinada combinação de componentes e uma seleção musical em que cada elemento contribuiu para a experiência. Seria intelectualmente desonesto transformar esta sessão numa prova definitiva da superioridade de um amplificador ou de um formato.

Mas também seria desonesto ignorar a experiência só porque não cabe numa tabela.

O que me ficou foi a ligação umbilical que a reprodução de vinil pode estabelecer entre o ouvinte e a música. Por vezes em algumas demonstrações, ao fim de algum tempo, a vontade é de fugir. Pois não só o volume utilizado é por vezes excessivo, como muito provavelmente a capa dura com que o digital tem tendência de vestir à música, acaba por derrotar os ouvidos. Não desta vez. Desta vez, cheguei às duas e meia e só saí quando a sessão estava prestes a terminar, pelas sete. A vontade de dançar. A sensação de que, naquele momento, não estava a tentar descobrir o que o sistema fazia melhor ou pior. Se o palco era estreito ou largo, flat ou profundo, se os graves eram secos, balofos, ou o que se possam lembrar de adjetivos do jargão audiófilo. Estive simplesmente a ouvir. A desfrutar.

E isso complicou as coisas.

Afinal, o que estamos a comparar?

Se tivesse de escolher um vencedor com base no detalhe, a discussão terminava já aqui. Na sala das B&W 802 D5, encontrei também corpo, escala e uma capacidade de envolvimento que reforçou a minha impressão sobre a evolução da Série 800 e no casamento singular com a amplificação Electrocompaniet e fonte Aurender. A slide guitar de Mark Knopfler aproximou-se de um território em que as cornetas costumam brilhar, mas com massa no som. E a orquestra ocupou um palco que me fez sentir os diferentes naipes, em largura e profundidade à minha frente.

Na sala das Atalante com o Jadis I-70 e exclusivamente vinil, encontrei outra forma de me relacionar com a música. Nem sequer nos atiraram com uma célula MC de topo. A Clearaudio Artist Ebony V2 é uma MM. E, ainda assim, a experiência não me deixou a pensar naquilo que, em teoria, poderia faltar ao sistema. Não me esqueci também da resolução. Que a houve. Simplesmente, deixou de ser a questão mais importante naquele momento.

Será que isso prova que o vinil é melhor?

Não.

Prova que, naquela sessão, naquela combinação e com aquela música, a experiência analógica me proporcionou uma ligação particularmente forte àquilo que estava a ouvir. Não é uma conclusão universal, nem uma razão para desvalorizar o digital. Aliás, no áudio, quando vos atirarem com verdades universais, desconfiem! É apenas a minha observação pessoal. A minha observação, que está aqui a ser partilhada precisamente porque não pretende ser mais do que isso.

Talvez o problema esteja na própria tendência de tomarmos posição por qualquer um dos lados. Quando escolhemos um, começamos a procurar argumentos para o defender. E pelo caminho, corremos o risco de deixarmos de parte aquilo que não confirma as nossas expectativas.

Tivemos aqui uma batalha. O digital de um lado, e o analógico do outro. Sei para que lado os meus ouvidos me arrastam. Não escondo a minha preferência. Mas saio sem um vencedor declarado, mas com uma pergunta mais interessante do que aquela com que entrei: será que estamos a confundir a capacidade de analisar a reprodução com a capacidade de nos emocionarmos com a música?

Não tenho uma resposta definitiva. E, sinceramente, não quero inventar uma.

A guerra continua. A música também.

Este mesmo Jadis I-70 passou pelas minhas mãos durante um mês, para uma análise mais cuidada. Por isso, não quis levantar demasiado o véu sobre o que poderão ler por aqui nos próximos dias, na review dedicada a este amplificador a válvulas classe A. Essa será uma conversa diferente, com espaço para conhecer melhor o amplificador e avaliar o seu comportamento no contexto do teste.

Jadis I-70 + Clearaudio Performance DC + Satisfy Cardan + Artist ebony v2 + Electrocompaniet ECP-2 MkII

Não escondo para que lado pendem os meus ouvidos. O sistema digital mostrou-me que o detalhe não tem de excluir corpo, escala ou envolvimento. O sistema analógico, por seu lado, fez-me esquecer durante horas a vontade de avaliar o som.

Será que isso prova que o vinil é melhor? Não. Prova que, naquela tarde, foi o vinil que mais me aproximou da música.

Para que haja uma próxima vez em que Satchmo me faça esquecer a resolução, tenho um projeto para os próximos dias: encontrar este disco à venda.

Fossem todas as guerras resolúveis numa loja de discos.

1 comentário em “Vinil contra digital. As primeiras Ultimate Sessions da temporada”

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