Um comunicado de imprensa não é notícia por aqui. É matéria-prima. E o que a AVID enviou ontem — dois amplificadores novos, o OPUS Pre e o OPUS Power — só me pareceu interessante depois de o pousar em cima da mesa e de me obrigar a não escrever o óbvio.
O óbvio seria listar especificações. Fazê-lo-ei resumidamente, esse não é o ponto principal.
Uma resposta que já tinha ouvido
Há quase dois anos, perguntei a Conrad Mas, fundador e CEO da AVID, se não fazia sentido a marca entrar no digital, dado o rumo do mercado. Não vou pôr aspas onde não devem estar — mas recordo-me bem da resposta: curta, direta, se calhar impaciente com a própria pergunta. Nada de “estamos a avaliar”. Só um não redondo.

Isso ficou-me na cabeça desde aí. Não pela resposta, mas porque, ao contrário do que normalmente se ouve em entrevistas, esta resistiu ao teste do tempo. O OPUS Pre e o OPUS Power não incluem streamer, não trazem DAC, não mencionam qualquer camada digital. Isto é consistente com o padrão que a AVID tem seguido em cada lançamento — não é propriamente uma surpresa vinda desta marca, mas confirma que aquele “não” nunca foi retórica. É um compromisso.
O que o comunicado diz — e o que não diz

Em termos técnicos, o essencial: o OPUS Pre usa o potenciómetro ALPS RK50 com controlo remoto, herda do CELSUS Pre a topologia analógica e os condensadores de polipropileno da marca, e integra o recente estágio de phono Pulsus II com transformador dedicado. O OPUS Power aposta num transformador toroidal de 1,1 kVA e 132.000 μF de capacidade de reserva. São os números que a AVID fornece. Um comunicado de imprensa fala de intenções de engenharia, não de resultado sonoro. Quanto ao som, falarei quando tiver a oportunidade de ouvir.
A pergunta que vale mesmo a pena fazer
O que me interessa aqui não é se a AVID tem razão em recusar o digital. É perguntar o que essa recusa custa — e o que compra.
Custa alcance. Um comprador que entra no hobby por via do digital não encontra na AVID uma porta de entrada óbvia. E isso é uma escolha deliberada de nicho, não um acidente, e tem um preço em volume de mercado que a marca parece disposta a pagar.

Compra em vez, coerência ao longo do tempo. Numa indústria onde alguns fabricantes redesenham o catálogo a cada ciclo comercial — DSP agora, streaming integrado a seguir, room correction depois — encontrar uma marca que resiste sistematicamente à tentação é, no mínimo, um dado a registar. Não é garantia de qualidade sonora. É garantia de que, quando se compra AVID, sabe-se o que se está a comprar — e sabe-se que esta filosofia provavelmente ainda vai lá estar daqui a pelo menos cinco anos.
Vale a pena perguntar: esta aposta é sustentável a longo prazo, ou é o tipo de posicionamento que só funciona enquanto a marca não precisar de escalar? Não tenho resposta definitiva. Tenho, isso sim, um sistema de referência, montado no analógico em torno de um AVID Ingenium com o pré-phono Pellar — o que significa que a filosofia da marca já moldou, de forma prática, como ouço música todos os dias antes de escrever sobre ela. Isso não me torna parcial. Torna-me, pelo menos, informado sobre o que estou a falar.
Isto não é um veredicto
Este artigo não é uma review. Ainda não ouvi o OPUS Pre nem o OPUS Power, e qualquer opinião minha sobre como soam terá de esperar. O que fica para trás é uma pergunta que deixo ao leitor, não uma resposta que lhe entrego: numa altura em que grande parte da indústria da alta-fidelidade se define pela quantidade de funcionalidades que se consegue adicionar num equipamento, o que se ganha — e o que se perde — quando uma marca decide, ano após ano, somar menos?
Preço e disponibilidade:

OPUS Pre — €24.995
OPUS Power — €22.995
AVID está disponível em Portugal e Espanha através da Exaudio.
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