Tenho alguma desconfiança em relação a equipamentos que a multidão diz aproximarem o digital do analógico. A palavra analógico, aplicada ao digital, tem servido para tanta coisa… Um som mais quente, um agudo menos “aguçado”, um grave com mais corpo, ataques menos incisivos. Arredondam-se umas arestas e, pronto, descobriu-se o Santo Graal da música!
Os preconceitos têm um problema: são conceitos que damos como certos e que precisam de ser confirmados com a realidade.
Foi o que me aconteceu quando o Audio Note CD 1.1x esteve cá em casa. E não, não me pareceu um leitor com som escuro. A história é um pouco mais complicada do que isso.
Os Rage Against the Machine e a camisola rasgada
Comecemos pelo meu sistema de referência, porque o contexto é importante. O Accuphase E-280 (amplificador integrado) e as Revival Audio Atalante 3 (colunas) formam um conjunto com corpo, textura e uma apresentação bastante orgânica. São equipamentos que não precisam de grandes ajudas para tornar a música fluida e agradável, mesmo em sessões de escuta prolongadas.
Foi neste sistema que liguei o CD 1.1x.
A primeira impressão foi boa. Muito boa, aliás. Há massa no médio e no grave, as vozes têm boa presença física e os agudos são extensos e doces. Os pratos de bateria têm um brilho delicioso e conservam o decay de forma muito realista, o que nem sempre encontro em equipamentos deste nível de preço. E não, não fiquei com a sensação de que alguém tinha fechado as cortinas para tornar o som mais confortável.
Entretanto pus a tocar o primeiro disco dos Rage Against the Machine.

Este disco é para ser ouvido como se a música estivesse a rasgar-me a camisola, de raiva. Quero a tensão, o ataque, a fúria. Neste disco é obrigatório ter a sensação de que lá fora estão a queimar pneus e a partir montras.
Com o CD 1.1x, ligado ao Accuphase e às Atalante 3, Zach de la Rocha pareceu-me mais educado. A raiva continuava lá, mas alguém lhe pediu para baixar o tom enquanto está à mesa.
Não foi uma questão de falta de detalhe, pelo contrário. Foi a maneira como a música se apresentou. A guitarra de Tom Morello não rasgou as notas de forma tão abrasiva como expetável. A bateria de Brad Wilk continuou a pontapear-me o peito, mas o impacto chegou-me mais amortecido. A música perdeu alguma da tensão que conheço desta gravação.
O Accuphase tem uma forma muito própria de integrar os acontecimentos musicais. As Atalante 3 acrescentam a isso corpo, textura e fluidez. O Audio Note veio juntar mais do mesmo. Resumidamente, todos arredondam arestas vivas. Em inglês, há uma expressão que descreve esta combinação na perfeição: too much of a good thing.
O palco sonoro não apertou nem achatou, pelo contrário. Mas, em vez dos músicos dispostos e desenhados a tinta-da-china, o quadro parecia pintado a aguarela. Continuavam todos no sítio, só que os contornos perderam parte da definição.
Sia e Sophie Barker são de carne e osso?
Mudemos de disco. Simple Things, dos Zero 7, e as vozes de Sia e Sophie Barker.
É um daqueles casos que me fazem perceber rapidamente se um sistema consegue dar corpo às vozes. Há uma qualidade orgânica, uma presença física que não se resume à articulação das palavras. É o que costumo chamar de carne no osso.
O Audio Note faz isto muito bem.
As vozes não aparecem excessivamente iluminadas. A informação está lá, mas não parece haver a intenção de apontar os holofotes para o facto de o equipamento a conseguir reproduzir. As vozes estão simplesmente ali, com textura, densidade e uma naturalidade que convida a ficar a ouvir música. E depois outra…

As cordas das guitarras acústicas têm aquele estalar inicial que nos faz reconhecer o instrumento, mas sem se tornarem metálicas ou agressivas.
E os pratos de bateria? Uma delícia. Têm brilho, têm extensão (muita) e deixam ouvir o decay até se desvanecer. Não são abafados, mas também não ficam a cintilar.
É precisamente por isto que não acusaria o CD 1.1x de ter um som escuro. A informação está lá. O que muda é a forma como é apresentada.
Há luz nos agudos, iluminados a LED, não a xénon. Uma luz que parece envolver os objetos, e não sobressair os seus contornos. Com o Audio Note, as notas ligam-se de forma natural, os instrumentos parecem partilhar o mesmo espaço e as vozes adquirem uma densidade que me agrada bastante.
Só que, em alguns discos, faz falta mais contraste. A música quer-se orgânica, claro. Mas também quer tensão. Pode parecer um preciosismo, mas é importante perceber quando uma qualidade deixa de ser uma vantagem e começa a tornar-se excessiva.
Uma baqueta revestida
O grave do CD 1.1x merece uma conversa à parte.
Equipamentos há que apresentam o bombo de uma bateria como uma pancada seca, precisa, quase geométrica. O Audio Note prefere dar-nos a sensação de que existe qualquer coisa física por detrás do impacto. Não ouvimos apenas a pancada: sentimos a pele, o volume da caixa, o ar deslocado e a sustentação que se segue.
A melhor maneira que encontrei para descrever isto é: uma baqueta revestida a pelo, em vez de a madeira bater diretamente na pele da bateria. O impacto está lá, mas não tem a dureza da baqueta nua. Há uma camada de matéria que o torna mais redondo, mais cheio, quase palpável. Como a diferença entre ouvir uma porta a bater e sentir o peso de uma porta maciça a fechar-se.
O médio segue a mesma filosofia. O piano de Keith Jarrett tem peso harmónico. A voz de Nick Cave ganha a caixa torácica de Schwarzenegger.
Os instrumentos, com o CD 1.1x, são madeira, pele, corda e volume físico. É um som que me faz pensar nos materiais dos instrumentos, não apenas nas notas que produzem.
No meu sistema, esta riqueza teve um custo. A música ganhou massa e textura, mas senti que perdia alguma da velocidade subjetiva e do contraste que me permitem acompanhar os acontecimentos com maior precisão. Ganhei fluidez e densidade, embora nem sempre tenha encontrado o nervo que procuro.
O diabo está no detalhe?
Seria fácil escrever que o CD 1.1x troca detalhe por musicalidade. Mas não foi isso que ouvi.
Durante a sua estadia, houve microdetalhes que o leitor me revelou e que não identifico da mesma forma com o Volumio Rivo com o Fezz Equinox. O Audio Note não esconde informação. Simplesmente, não pede uma medalha por a revelar.

O que senti foi uma diferença na forma como essa informação se organiza na apresentação sonora.
O CD 1.1x privilegia a coerência harmónica, a textura e a continuidade entre os acontecimentos. A minha combinação de streaming e conversor, já de si com um teor orgânico muito acima da média, oferece-me uma apresentação mais arejada, com ataques mais definidos e uma sensação mais nítida de separação espacial.
São coisas diferentes. O CD 1.1x surpreendeu-me diversas vezes com um microdetalhe específico, mas o Equinox dá-me uma imagem global mais aberta e fácil de analisar.
A extensão dos agudos do Audio Note permite aos pratos conservar o seu decaimento, as vozes revelam subtilezas e os instrumentos acústicos ganham uma riqueza tímbrica notável.
A questão é que, no meu sistema, o amplificador e as colunas já fazem muito bem o trabalho de ligar os acontecimentos musicais. O Audio Note também o faz a montante.
O concerto de Keith Jarrett

Durante a estadia do CD 1.1x, ouvi várias vezes o concerto de Keith Jarrett em Colónia. E não me fartei.
O facto de ter repetido a audição deste disco tantas vezes merece ser sublinhado, porque não sou daqueles que ouvem as coisas repetidamente. Lembro-me de desejar chegar a casa para o ouvir no CD 1.1x.
E não será esta uma das melhores qualidades que um equipamento pode ter? Fazer-nos desejar chegar a casa para ouvir música?
A riqueza harmónica do piano, o corpo das notas e a forma como o som se desenvolve no tempo tornaram a audição particularmente envolvente. O Audio Note não me obrigou a escolher entre a naturalidade do instrumento e a vontade de continuar a ouvir.
Não fiquei a pensar se o piano tinha mais ou menos recorte, se o palco era mais ou menos profundo ou se conseguia identificar mais um detalhe. Queria ouvir o disco. Voltar a ouvi-lo. E isso é o que realmente conta.
Fui ouvir o CD 1.1x na casa de um amigo
Uma dúvida não conseguia resolver na Torre Bigodes. Como funcionaria esta apresentação arredondada com um sistema completamente diferente do meu?
Levei o leitor para casa de um amigo, onde o ligámos a um amplificador Lyric Ti100 MkII, com válvulas de saída KT170, e às colunas omnidirecionais Duevel Bella Luna, equipadas com tweeter de corneta.
Foi uma mudança de contexto importante. As Bella Luna apresentam o som de uma maneira muito diferente das Atalante 3. E nesta combinação, o Lyric pareceu-me dar mais ímpeto à música, enquanto o conjunto trouxe um contraste que senti faltar em casa. Não vou transformar isto numa regra sobre amplificadores com KT170 ou colunas com tweeter de corneta. Estou a falar do que ouvi naquele sistema.
Foi aqui que o Audio Note teve espaço para brilhar de outra forma.

A assinatura densa não desapareceu. Continuei a reconhecer a densidade dos médios, a suavidade dos ataques e a maneira como os instrumentos pareciam ligados uns aos outros. Mas aquilo que, em minha casa, por vezes me pareceu romantizado em demasia, passei a ouvir como refinado.
O leitor não deixou de soar aveludado. Simplesmente, desta vez, a suavidade surgiu contrabalançada pelo ímpeto e pelo contraste do resto da cadeia.
Esta experiência foi importante porque me impediu de chegar a uma conclusão demasiado fácil. Se tivesse ficado apenas pelo meu sistema, talvez tivesse considerado a apresentação do CD 1.1x excessivamente suave, ponto final. Mas a audição noutro contexto mostrou-me que a questão não é assim tão simples.
Um equipamento não toca sozinho. E uma característica que, num sistema, se torna excessiva pode ser precisamente aquilo que falta noutro.
E no fim, uma coisa ficou óbvia. Ao meu amigo custou-lhe que eu trouxesse embora o leitor de volta.
É uma das razões pelas quais devemos evitar verdades universais sobre equipamentos de áudio. O que interessa não é saber se um leitor é quente, frio, rápido ou lento em abstrato. Interessa perceber o que acontece quando o ligamos a um sistema concreto e pomos a música a tocar.
Poesia, tinta-da-china e aguarela
Tenho sido acusado, algumas vezes, de ser demasiado poético na maneira como descrevo as minhas experiências. É um ponto de vista. Mas a experiência de ouvir música não se resume a medir a separação entre instrumentos ou a contar quantos detalhes conseguimos identificar numa gravação.
O problema é que a poesia também deve ter conta e medida.
O CD 1.1x fez-me pensar nisso. Há uma beleza evidente na sua forma de apresentar a música, na continuidade entre as notas e na densidade que empresta às vozes e aos instrumentos acústicos. Mas também há momentos em que apetece rasgar a camisola, partir montras e incendiar pneus.
Quero poesia, mas também quero rock’n’roll.

No meu sistema, as Atalante 3 já me dão muito daquilo que procuro em textura e em corpo sonoro. O Accuphase ajuda a ligar tudo de forma refinada, com autoridade, evitando tornar a audição cansativa. Talvez seja uma questão de gosto. O meu sistema já me dá muito daquilo que o Audio Note demonstrou ser tão bom a oferecer.
Gosto muito de chocolate, mas também gosto de lhe juntar flor de sal. Até malagueta, por vezes.
O que sei é que, neste momento, procuro um equilíbrio entre a organicidade e o ataque. Em casa do meu amigo, ouvi esse equilíbrio com o Audio Note. Na minha, a conclusão não foi exatamente a mesma.
Quero ouvir a madeira, a pele, a respiração. Mas também quero ouvir o espaço que cria o contraste entre elas.
Ficava com ele?
Se tivesse um sistema a pender para o magrinho, ou a escorregar para o analítico, o Audio Note CD 1.1x seria uma opção que levaria muito a sério. A sua capacidade de dar corpo às vozes, textura aos instrumentos e continuidade à música poderia trazer o equilíbrio que faltava.
No meu sistema, não me pareceu a fonte todo-o-terreno que procuro. Para sessões de escuta descontraídas, sobretudo com vozes, jazz acústico, folk, piano e pequenas formações, é uma aposta que consideraria seriamente. O concerto de Keith Jarrett é um bom exemplo: há uma qualidade na apresentação do piano que me fez regressar repetidamente a esta gravação.
O meu sistema já tem corpo, textura e fluidez q.b. Com o Audio Note, senti a falta de mais contraste, mais espaço entre os instrumentos e transientes mais incisivos.
O mesmo não aconteceu no sistema do meu amigo. E ficou óbvio que lhe custou que eu o trouxesse embora!
Não me atrevo a chamar ao CD 1.1x escuro, porque não o é. Também não lhe falta detalhe. A minha reserva é outra: no meu sistema, a sua forma de integrar a música tornou-se excessiva em alguns discos. No sistema do meu amigo, a mesma característica apresentou-se melhor enquadrada.
O CD 1.1x mostrou-me que a musicalidade não se resume a eliminar arestas ou a tornar tudo mais agradável. A integração tem um valor enorme, mas não é o único. O espaço, o contraste e a tensão também fazem parte da música. O CD 1.1x arredonda, é verdade. Mas não escurece nem esconde informação. Integra. Por vezes, de forma implacável.
O Audio Note CD 1.1x tem a sua própria personalidade e, com alguns discos, deu-me vontade de ouvir mais música. Num mercado onde tanto equipamento parece apenas querer agradar a toda a gente, isso não é dizer pouco.

As especificações Técnicas do Audio Note CD 1.1x
O Audio Note CD 1.1x presente nesta review foi temporariamente cedido pela Exaudio, o representante oficial da Audio Note em Portugal


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