Este artigo é um dos primeiros de uma série que já peca por tardia.
A série começou por se chamar As Aventuras do Bigodes no Analógico. Adorei o gira-discos que a estreou logo da primeira vez que o ouvi. Tinha uma série de características que colocavam a sua performance a um nível muito superior ao que um olhar menos atento poderia fazer parecer. Ao colocá-lo frente a frente com a minha atual referência, a fraqueza comum a ambos ficou evidente.
O conceito: plug and play. O gira-discos chega a casa. Abre-se a caixa. Monta-se. Normalmente sem necessitar de grande afinação, e está pronto a proporcionar horas e horas de prazer.
Não me percebam mal. Para a grande maioria, qualquer um deles encheria as medidas do seu feliz proprietário. No entanto, existe uma raça de pessoas que, no som, nunca estão felizes com o que têm — e que, por estarem constantemente à busca daqueles 15, 10, 5 ou até mesmo 1% de melhoria, seja na largura e na profundidade do palco sonoro, no detalhe, na textura, enfim, na realidade percecionada de que o seu sistema é capaz de proporcionar, somos capazes de atravessar o estreito de Termópilas e bater-nos contra os 300 espartanos para o conseguir.

O primeiro, o MoFi StudioPlayer, tinha um caminho para upgrade: a célula. O Avid Ingenium, o deck que se seguiu e que é a atual referência do meu sistema (e uma base mais modular do que aparenta), até mostrou que a célula do MoFi era bem superior. Além da que trazia de origem — com referência Avid, mas que mais não era que uma Rega Carbon, que por sua vez mais não é que uma AT3600L com ligeiríssimas alterações —, tinha também, no caso do exemplar que mora cá em casa, um braço de origem Rega, o RB110, a que a Avid também atribui uma referência interna. E na célula e no braço residia o calcanhar de Aquiles deste conjunto.

Digo residia, porque os próximos artigos desta série vão descrever alguns upgrades possíveis no Avid Ingenium. A própria marca já o reconheceu, lançando a variante SE, com um novo braço e motor (passando a pedir o dobro do valor que pediam quando o meu assentou arraiais na Torre Bigodes — o que diz muito acerca da qualidade deste chassis).
No entanto, este artigo não serve (ainda) para vos contar essa parte das minhas aventuras no mundo analógico. Afinal, uma casa começa por ser construída pelas fundações, e essas fundações são a base, o Ingenium. Certo. No meu caso, como de tantos outros, os meus discos são principalmente comprados usados. Alguns têm agulhas a rodar nos seus sulcos desde antes de eu nascer, e também têm poeira e sei lá que mais a acumular-se nesses sulcos desde aí. Já mereciam alguma dose de mimo, não? Afinal, entre a agulha e a informação lá residente, existia muito a separar-me de mim e do todo da minha música.
Já tinha tentado de tudo, desde esfregá-los no sentido dos sulcos com vários tipos de panos com soluções de água e álcool, a outras coisas que não me atrevo aqui a descrever. Só faltou mesmo a palha de aço…
Enquadramento
Ok. Admito. Quando pedi uma máquina de lavar discos para review, tive um interesse particular por trás. O meu DNA espertalhão tuga a funcionar. Sabia lá eu que esta história se transformaria em algo um pouco mais complexo do que os 5 a 6 mil caracteres máximos que tinha planeado para este artigo.
A Ajasom, que comercializa a HumminGuru em Portugal, sugeriu enviar uma máquina manual e uma ultrassónica. Quando chegaram, veio também o dispensador automático de líquido para a de ultrassons. Já lá vamos.

O primeiro disco a que posso chamar meu está comigo praticamente desde que o meu pai me comprou o meu primeiro sistema. Chegou às minhas mãos desde os meus 16 anos, já usado. The Final Cut, o tal disco de Roger Waters ainda assinado pelos Pink Floyd. Este disco tinha, desde que chegou, o que eu pensava ser um risco, que o fazia saltar logo na primeira música. Roger saltava depois de “Tell me true, tell me why, was Jesus cruci…”. Isto até há alguns dias. Este salto na música, que para mim era um balde de água fria, deixou-me sem vontade de ouvir o lado A desde então.
Trinta e cinco anos depois, entra a EZ Vinyl Record Washer — a máquina de lavar discos manual da HumminGuru. Mais não é que um reservatório vertical de líquido de limpeza, onde encaixa o eixo central com uma manivela manual, onde vamos encaixar os discos pelo furo central e fazê-los rodar pelo líquido, onde moram duas escovas de pelo de cabra opostas uma à outra, com o disco a rodar no centro. O pelo de cabra é apontado pelos maiores especialistas como o ideal para penetrar nos sulcos dos discos de vinil. A outra característica é que, se esquecermos o líquido na máquina, vai parecer que alguém deixou um queijo chèvre destapado. Aqui fica o meu conselho: lavem os discos todos que conseguirem de uma assentada. Depois, conforme o estado em que sair o líquido, deitem-no fora, ou se sair limpo, guardem-no longe das escovas da máquina…
Afinal, o meu Final Cut não estava riscado. Apenas precisava de uma lavagem à maneira. Disco salvo!
Para quem praticamente só compra discos usados, como eu, pode estar aqui uma aquisição obrigatória. Chegou então a hora de passar toda a minha pequena coleção pela máquina manual. Dito e feito.

Primeiras impressões? Depois da primeira passagem em todos os discos da minha coleção, a fritadeira que parecia morar atrás do gira-discos não se reformou definitivamente, é um facto, mas aparentemente mudou-se para bem mais longe. Esse problema ficou praticamente resolvido. Mas as surpresas não ficaram por aqui: os poucos 7 polegadas que tenho funcionam da mesma forma. A base da máquina é destacável, passando a albergar os pilares do escorredouro para oito discos em simultâneo, com uns giríssimos colibris (Humming Birds) em borracha nas pontas para não aleijar os nossos preciosos discos.
A visão dos discos a secar, numa casa onde a roupa seca em máquina, lembrou-me da vez que fiquei alojado num alojamento rural no Douro, onde estendiam a roupa de cama ao relento, em cordas esticadas entre esteios de pedra, à moda antiga, com a roupa a cheirar a sabão Offenbach. Nota: os discos não ficaram a cheirar a pelo molhado de cabra! A experiência não é só marcante pela roupa estendida e pelo cheiro do sabão, mas sobretudo por se ter passado no cenário de uma casa senhorial em granito do século XVII, no meio das árvores de fruto, numa escarpa do rio Varosa.
Para quem estima a sua coleção de discos e a música que lá mora, uma máquina para os lavar é o mínimo exigível para lhes sacarmos o melhor que têm para nos dar. E de facto, faz toda a diferença — mais do que inicialmente poderia ter calculado, principalmente porque muito provavelmente não adianta comprar uma célula melhor, se o lixo guardado nos sulcos não a deixar chegar à mensagem que lá se encontra gravada.
Passemos à máquina de ultrassons
Aqui cometi um erro. Normalmente começa-se pelo mínimo impacto expectável e vai-se progredindo pelos degraus seguintes, para não dar passos atrás. Pois. A expectativa levou a melhor, e experimentei a máquina de ultrassons já com o dispensador de líquido, e só depois dei o passo atrás.


O conjunto da máquina de ultrassons com o dispensador de líquido, para comodistas como eu, é perfeito. O dispensador, como o nome indica, enche a máquina com os 400 ml de líquido de limpeza (solução de água destilada com duas ou três gotas de líquido de limpeza). Selecionando o programa automático, a máquina lava o disco em programa rápido ou longo, conforme selecionarmos, e depois escoa automaticamente a solução para o depósito, que fica pronto, à distância do toque de um botão, para lavar outro disco sem qualquer intervenção manual. A secagem começa também automaticamente se assim o quisermos. Basta retirar o disco e carregar a máquina com o próximo, e consecutivamente. Sem o dispensador, o processo é muito parecido; apenas temos de engolir em seco a preguiça e passar novamente a solução do depósito manualmente para a máquina antes da próxima lavagem. Simples, mas menos adaptado a estes tempos em que tudo está à distância de um clique.

E a diferença entre máquinas? A máquina manual é a escavadora que prepara o terreno para as fundações do edifício musical. A máquina de ultrassons, essa já é capaz de limpar as paredes para podermos pendurar os Picassos e os Dalis musicais. Foi essa a grande diferença que tive a sorte de sentir, devido à coincidência de as máquinas terem chegado primeiro e, logo de seguida, um novo braço, também para review, onde pude testar as duas células que tive disponíveis até ao momento em que estou a escrever estas linhas, já com o ouvido mais afinado para notar as diferenças.
A reprodução analógica é basicamente mecânica, e este processo de upgrade pelo qual tenho passado nos últimos meses é a prova disso mesmo. Colocar discos “lavados” é apenas mais um passo neste caminho. Se pouco ou nada houver entre o diamante e a mensagem inscrita no sulco, não será esse um dos passos mais importantes rumo a uma reprodução mais próxima da intenção original dos artistas?
É importante aqui uma nota, a bem do rigor: como a chegada das máquinas e a montagem do braço novo aconteceram praticamente ao mesmo tempo, nem tudo o que ouvi de diferente é automaticamente atribuível apenas à lavagem. Mas há exemplos concretos que atribuo com confiança à limpeza dos discos.

O Best of de Leonard Cohen é um disco que também vive de silêncios — até aqui não cumpridos —, que servem de cimento às palavras de Cohen. Tanto ganhou com a limpeza. Seria este o passo que faltava, e que ainda impedia a primazia do analógico perante a conveniência do streaming? Os formatos físicos, na minha opinião, até aqui eram preferíveis, nem que não fosse pelo apoio ao trabalho do artista. Carmina Burana, de Orff, passou a ser um disco consumível para além da abertura e do fecho, O Fortuna — consumível é uma palavra pequena para esta obra genial, agora acessível de fio a pavio. A voz de Kate Bush finalmente ganhou a dignidade merecida em Don’t Give Up, no disco So de Peter Gabriel, onde antes havia alguma granularidade. E o crescendo do Bolero de Ravel, difícil de suportar nos primeiros minutos devido ao ruído que competia com a música pela minha atenção, deixou de competir.

Apenas exemplos de discos que passaram a audições regulares, quando antes eram desejos evitados devido aos anos de sujidade acumulada nos sulcos. Quem tem discos sabe ao que me refiro. Anos, até décadas, de lixo acumulado impedem a agulha de um contacto total com a mensagem que o artista nos deixou lá gravada.
A leitura ficou igual ao digital? Hell no! Vinil sem ruídos não é vinil — até os meus discos novos ganham ruídos. Os ouvidos até estranhariam. A lavagem não esteriliza o disco. Simplesmente tirou-me da frente parte da sujidade que me impedia de ouvir a música como ela lá está.

A máquina de limpeza manual é um negócio de valor inegável para alguém que compre frequentemente discos usados, quando estamos a falar de pouco mais de 100€. Já a máquina de ultrassons, pela qual o importador pede seis vezes mais, é outra conversa.

Já estarão a adivinhar o desfecho desta história? Pois. Mas só a máquina manual encontrou o caminho de volta. A de ultrassons já não vai a lado nenhum! Quanto ao dispensador… desta vez a preguiça não levou a melhor. Foi devolvido também.
Uma batalha vencida, não a guerra. Ainda. Os 300 espartanos continuam à espera dos próximos capítulos desta série. A fundação está cumprida. A casa, essa, ainda está por concluir.

As duas máquinas de lavar discos, bem como o dispensador de líquido de limpeza utilizados nesta review foram gentilmente cedidos para review pela Ajasom. A máquina de ultrassons passou a fazer parte do sistema de referência, usado para todas as reviews publicadas aqui em MoustachesToys.

