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TAD CE1TX, A sala que desapareceu, e o monolugar de Fórmula 1

A sala que desapareceu

Durante alguns momentos, deixei de estar numa loja de alta-fidelidade em Cascais.

TAD CE1TX system

Al Di Meola, John McLaughlin e Paco de Lucía estiveram ali a rodar no prato do Avid Acutus. A tocarem só para mim. Não como registo gravado, não como reprodução sonora, mas como presença praticamente física, a ocuparem o mesmo espaço que eu.

A ilusão quebrou-se quando o público aplaudiu. Nesse instante, o espaço regressou. A consciência voltou ao lugar onde estava o corpo.

E percebi algo estranho: não estava apenas acompanhado pelas pessoas presentes na demonstração. Estava também, de forma imaginada e paradoxal, rodeado por quem tinha estado no Warfield Theatre de São Francisco naquela noite de 1980.

Foi um curto-circuito temporal. Uma sobreposição de realidades — e arrisco escrever isto, sentindo que me irão apontar como ridículo.

O que aconteceu ali não foi “boa imagem stereo”, nem sequer “excelente palco sonoro”. Foi algo mais difícil de nomear: a suspensão temporária da ideia de reprodução. Uma espécie de table dance pelas três noivas do Drácula de Francis Ford Coppola — só que em vez da languidez erótica de Monica Bellucci e companhia, tive direito ao virtuosismo absoluto dos três guitarristas. Os três intérpretes, ali, só para mim.

Esta ilusão tem história. E tem condições muito precisas.

O ponto de partida — As TAD ME1TX

A minha primeira experiência verdadeiramente marcante com colunas TAD aconteceu com as ME1TX, modelo abaixo na hierarquia da marca nipónica, no primeiro Hi-Fi Show do Estoril. Mais tarde, uma segunda sessão, desta vez dedicada, em loja, completou o quadro. Esse material deu origem a um primeiro artigo com as TAD ME1TX — com direito a entrevista exclusiva ao presidente da marca, que recomendo revisitar, não como arquivo, mas como contexto do que se segue.

TAD + Avid + Innuos + ZenSati system

Não foi neutro. Houve impacto físico — pele de galinha não foi metáfora, foi resposta involuntária ao realismo da experiência.

As ME1TX têm energia imediata, rapidez, ataque. Uma presença que não nasce só do detalhe mas sobretudo da coerência entre partes. Foi aí que julgo ter começado a perceber a filosofia desta marca nipónica. Ela não vive no discurso técnico — vive de uma intenção que é audível.

O que estas colunas oferecem não é escala artificial nem dramatismo. É foco. A música não parecia reproduzida — parecia já lá estar, à espera de ser encontrada.

A evolução natural — As TAD CE1TX

As ME1TX abriram-me a janela para a filosofia TAD.

As CE1TX mostraram outra dimensão: maturidade — que aqui não significa suavidade, nem recuo. Significa ausência de necessidade de provar algo. São dois estados diferentes da mesma convicção.

O sistema

João Pina, o nome por trás da Exaudio, construiu o contexto desta demonstração na sua loja de Cascais: giradiscos AVID Acutus com braço Altus e célula Shelter Harmony, estágio de phono EMT 128, leitor de SACD TAD-D1000-TX e streamer Lumin U2X com conversão entregue ao DAC interno do leitor japonês, pré-amplificador TAD C1000 e amplificador de potência M1000, tratamento de corrente Plixir, cablagem ZenSati.

A lista importa menos do que o que se sentiu: não houve componentes. O que houve foi um organismo único. E foi essa ausência de costura que tornou tudo o resto possível.

O que é diferente nas CE1TX

Se as ME1TX tiveram impacto imediato, as CE1TX são feitas de outra fibra.

Qualquer diferença apontada daqui para a frente carrega o devido desconto de meses entre audições, e tudo o que isso significa. Contudo, arrisco: a diferença entre irmãs não é tonal. É mais funda. É estrutural.

O que senti com as CE1TX foi um alinhamento temporal que impede a música de se separar em atributos. Não é apenas resolução, não é apenas detalhe — é a música a chegar inteira, sem que nenhuma parte se destaque às custas de outra. Não me refiro à típica fluidez líquida associada a sistemas alimentados por válvulas. Tudo estava perfeitamente delineado, mas todos os instrumentos, todos os sons, a trabalhar em equipa. Aqui não houve solistas.

A TAD tem uma obsessão evidente pela ausência de artificialidade: não acrescentar, não retirar, não decorar. E é isso que explica a facilidade com que o sistema simplesmente desaparece.

Já senti imersão noutros contextos — geralmente pela escala do palco ou pela capacidade espacial de grandes colunas. Isto foi diferente. As CE1TX não criam um espaço impressionante. Criam a condição para esquecer que existe reprodução. Aquela noite no Warfield Theatre de São Francisco, sentida numa tarde de sábado numa loja em Cascais, foi real durante o pouco tempo que durou.

Sweet spot — a verdade e o resto da sala

Mas essa magia tem um centro.

No sweet spot, o realismo é absoluto — perturbadoramente estável. A imagem é sólida, com uma presença que é revelação e não construção.

Meio metro para o lado e o quadro altera-se: o grave adensa, provavelmente por efeito do design dos pórticos laterais e da exigência que trazem em relação ao posicionamento face à parede do fundo. A imagem mantém-se ampla, mas perde aquela qualidade táctil que existe só no centro.

Fora dessa posição, o sistema continua a ser realista. Mas deixa de ser hipnótico.

Isto não é uma crítica. É a descrição do que estas colunas são: instrumentos de precisão e de escuta deliberada, não de consumo musical de fundo. São feitas para quem escolhe parar para ouvir. Para quem escolhe ficar.

A ilusão existe. Mas exige cumplicidade.

Ouvir estas colunas é como conduzir um monolugar. Para quem está nas bancadas do autódromo, também é um espectáculo digno de pagar um bilhete. Mas a verdadeira experiência, inteira, essa, é só direito de quem se senta no sweet spot.

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